As Eleições Presidenciais da Colômbia: principais temas e candidaturas

Augusto Neftali Corte de Oliveira, Laura Pedron, Isabella Maschke, Murilo Zaniratti da Rosa

As eleições presidenciais da Colômbia estão agendadas para o próximo dia 29 de maio, com segundo turno previsto para o dia 19 de junho. Trata-se de uma disputa relevante para os rumos do país nas próximas décadas, tanto por definir a continuidade do processo de paz em curso com as antigas Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC), quanto pelo potencial reposicionamento do Estado colombiano em sua relação com a sociedade e a economia. Depois de obter um resultado positivo nas eleições legislativas de março de 2022, partidos e movimentos de centro-esquerda podem estar próximos conquistar a presidência da Colômbia. Neste artigo, iremos apresentar os principais temas da disputa presidencial de 2022 na Colômbia e a visão dos competidores que despontam nas pesquisas de opinião.

O processo de paz é um dos temas centrais das eleições presidenciais deste ano. As eleições colombianas anteriores, realizadas em 2018, ficaram marcadas pela participação das FARC como um partido político. A nova estrutura do grupo, que passou a usar o nome “Forças Alternativas Revolucionárias do Comum”, foi idealizada buscando uma alternativa pacífica para inserção dos ideais das FARC na sociedade. Este novo modelo institucional foi criado a partir da finalização das negociações que firmaram o acordo de paz entre o governo colombiano e as FARC. O acordo previa não somente o fim dos conflitos, como também uma reparação às vítimas e famílias das vítimas.

fonte: https://www.cne.gov.co/prensa/comunicados-oficiales

A partir de 2017, o governo iniciou o processo de reinserção social dos guerrilheiros das FARC, tendo sido registrada a entrega de grande parte do armamento da guerrilha. Atualmente, parte da população colombiana entende que o tratado não está sendo cumprido. O Presidente Iván Duque Márquez, eleito em 2018, tinha como objetivo alterar o acordo. No entanto, não obteve força política para passar o projeto no parlamento. O principal motivo de preocupação sobre a segurança das eleições, contudo, é resultado da atuação de grupos armados ligados ao tráfico de drogas. Ação no início de maio, em resposta à extradição do líder “Otoniel” para julgamento nos Estados Unidos, foi capaz de atingir municípios em diferentes departamentos da Colômbia. A elevada magnitude destes ataques, que paralisaram comércios e serviços públicos, trouxe a questão da segurança para o centro do debate político.

Outra questão central das eleições presidenciais de 2022 é o cenário econômico, profundamente impactado pela pandemia de Coronavírus (Covid-19). Anteriormente, a Colômbia estava usufruindo de um período de crescimento. Com a pandemia, atingiu em 2020 seu pior desempenho econômico em quase meio século, com uma queda de 6,8% no Produto Interno Bruto (PIB), em relação ao ano de 2019. A crise prejudicou o setor de comércio, agravou a violência e gerou um aumento no desemprego. O governo reagiu com algumas medidas, em especial ajuda financeira para famílias em situações de vulnerabilidade e isenções de impostos para determinadas empresas.

Entretanto, as medidas não foram suficientes. O setor petrolífero, que desde 2013 vem se tornando um pilar para a economia colombiana, foi fortemente impactado durante a pandemia. Mesmo com inseguranças provenientes destas condições, a Colômbia conseguiu uma melhora econômica no ano de 2021 e, em 2022, o país retomou os patamares do período pré-pandemia. A população colombiana, contudo, permaneceu em desvantagem durante este processo de recuperação. Como parte de medidas adotadas destinadas a equilibrar a situação fiscal após os incentivos econômicos concedidos durante a pandemia, o governo promoveu uma reforma tributária com impacto no aumento dos impostos de, até mesmo, produtos de alimentação básica.

Protesto em dezembro de 2019, Bogotá, Colômbia. Fonte: Photo by Ricardo Arce on Unsplash

Estas circunstâncias são absorvidas por uma conjuntura política turbulenta. Em abril de 2021 ocorreram grandes protestos, ainda em meio à pandemia. Os protestos tiveram um caráter heterogêneo, pois envolveram múltiplas pautas. Entre elas, a rejeição à reforma tributária, questões indígenas, violência policial e o Acordo de Paz de 2016. A ONG colombiana Temblores registrou cerca de 940 casos de violência policial durante os protestos e investiga a morte de, ao menos, 8 manifestantes. A revolta demonstrada nas ruas em abril de 2021 difundiu uma percepção generalizada de insatisfação com o governo do atual presidente colombiano, Iván Duque.

A situação política da Colômbia às vésperas das eleições presidenciais de 2022 parece favorecer as candidaturas de oposição e, em especial, situadas à esquerda no espectro político. O principal nome deste setor é Gustavo Petro, candidato de uma coalizão de partidos de esquerda. Ele possui um passado extenso na política colombiana, como prefeito de Bogotá e Senador. Petro é um candidato bem colocado nas pesquisas de intenção de voto para presidência na Colômbia de 2022. Em suas propostas, ele apresenta apoio à reforma agrária e à comunidade rural. Em seu programa de governo, é veemente em ressaltar a importância de programas para essas comunidades isoladas dos centros urbanos. Postula adaptar suas políticas públicas para contemplar a população afrodescendente, palenquera (comunidade tradicional de língua crioula), e indígena.

Gustavo Petro e Francia Márquez. Fonte: https://gustavopetro.co/

Além disso, pretende mudar a “economia ilegal” para uma focada no trabalho justo e na produção e distribuição de alimentos de pequenos produtores. Dessa forma, Petro apresenta um claro contraponto do atual governo e busca ativar bases sociais como as dos trabalhadores rurais. Tais iniciativas são marcadores que antagonizam a campanha de Petro ao atual governo do presidente Ivan Duque. Em termos da política externa colombiana, a candidatura de Petro apresenta uma posição voltada às afinidades regionais na América Latina.

Federico Gutiérrez é um nome conhecido da política colombiana que disputa a cadeira presidencial, com as melhores chances de enfrentar Petro no segundo turno. O mais jovem entre os principais candidatos, Federico Gutiérrez é engenheiro civil e foi vereador e prefeito do município de Medellín. Atualmente, faz parte do Movimento Creemos e da coalizão “Equipo por Colombia”. Ele busca representar o campo ideológico da direita nas eleições e conta com o apoio do Centro Democrático, partido do atual Presidente, Iván Duque. O programa de governo de Gutiérrez define como pilares principais “Ordem e Oportunidades”. Um dos temas mais salientes do documento é o combate à corrupção, indicando medidas como aprimorar os mecanismos de investigação e tornar as leis mais duras em relação aos envolvidos em crimes na área. Outro tema é a segurança pública, em que propõe intensificar o combate às organizações criminosas e controlar o território colombiano de forma integral. O plano ainda promete dar continuidade ao processo de implementação das medidas estabelecidas pelo Acordo de Paz entre o governo da Colômbia e as FARC.

Federico Gutiérrez. Fonte: https://federicogutierrez.com/

Federico Gutiérrez propõe o fortalecimento econômico da Colômbia, associando a iniciativa a maior geração de empregos. Na política externa, valoriza a proposição de que representaria uma nova liderança capaz de renovar a posição da Colômbia e estreitar a cooperação com os países geograficamente próximos. O cenário no caso de eleição de Gutierrez possui incertezas. A alta impopularidade do governo atual mostra que Gutierrez encontrará dificuldades caso os caminhos escolhidos por Iván Duque sejam mantidos. As declarações de Gutiérrez, em que o candidato se mostra contrário a negociações com grupos armados, pode acentuar a instabilidade presente na sociedade colombiana.

Gustavo Petro e Federico Gutiérrez são os candidatos com maiores probabilidades de avançar para o segundo turno, conforme as projeções de pesquisas de opinião. Outras duas candidaturas merecem atenção. Uma delas é a de Sérgio Fajardo, que pode ser descrita como centrista. O histórico político de Fajardo não é extenso. Entretanto, o mandato como prefeito de Medellín lhe conferiu credibilidade política, popularidade e simpatia. Nas eleições atuais forjou a alcunha de “professor”, pois, além de ter um passado como acadêmico, seu plano de governo se baseia majoritariamente no avanço educacional, tecnológico e cultural.

Uma última candidatura eleitoralmente relevante é a de Rodolfo Hernández, candidato do movimento de centro-direita, “Liga Anti Corrupção dos Governantes”. Ele procura se apresentar como um candidato não tradicional, de ingresso recente na política. Por conta de declarações polêmicas (como a de que admirava Hitler) e do uso coloquial da comunicação, ele vem sendo associado com uma candidatura populista no estilo de Donald Trump. Assim como Federico Gutiérrez, Hernández salienta a questão da corrupção em sua plataforma programática. A candidatura também enfoca políticas sociais, com propostas voltadas para geração de emprego e promoção das áreas da saúde e da educação. Como propõem um papel ativo do governo colombiano nestas políticas, Rodolfo Hernández parece distanciar-se do perfil convencional de uma candidatura de direita liberal. Com uma filha vitimada em ação da FARC em 2004, o candidato atualmente defende a continuidade do processo de paz.

As diferenças políticas e ideológicas entre os quatro principais são marcantes. Gustavo Petro conseguiu mobilizar a insatisfação social contra o governo em apoio a sua candidatura, representando uma rara oportunidade para titulação na presidência da Colômbia de um candidato de centro-esquerda. Federico Gutiérrez é o candidato que apresenta as propostas mais alinhadas com o campo da direita, com um discurso em que a segurança pública e o combate à corrupção são enaltecidos. Porém, sua associação política com o atual governo colombiano parece não auxiliar nas pretensões eleitorais. Sérgio Fajardo e Rodolfo Hernández possuem as candidaturas mais próximas de remover Gurierrez da disputa do segundo turno, ambos patrocinando apelos de cunho social. Sérgio Fajardo oferece uma imagem de renovação e Rodolfo Hernández mobiliza um perfil populista. O último está mais próximo de remover a candidatura oficialista do segundo turno e de representar uma visão ideológica conservadora na disputa do próximo dia 29 de maio.

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