OLIVEIRA, Augusto Neftali Corte de; PEDRON, Laura Freitas; MASCHKE, Isabella; ROSA, Murilo Zaniratti da. As Eleições Presidenciais da Colômbia: principais temas e candidaturas. Caderno de Conjuntura OAPoc, v. 1, n. 7, 2022.

As Eleições Presidenciais da Colômbia: principais temas e candidaturas

Autoria: Augusto Neftali Corte de Oliveira; Laura Freitas Pedron; Isabella Maschke; Murilo Zaniratti da Rosa.

Resumo: O texto analisa os principais temas e candidaturas das eleições presidenciais colombianas de 2022. Destaca o processo de paz, a conjuntura econômica e os protestos sociais, examinando as propostas e os posicionamentos de Gustavo Petro, Federico Gutiérrez, Sergio Fajardo e Rodolfo Hernández.

Palavras-chave: Colômbia; eleições presidenciais; Gustavo Petro; processo de paz; política econômica; sistema partidário.

Abstract: The essay examines the main issues and candidates in Colombia’s 2022 presidential election. It highlights the peace process, the economic context, and social protests, while discussing the proposals and political positions of Gustavo Petro, Federico Gutiérrez, Sergio Fajardo, and Rodolfo Hernández.

Keywords: Colombia; presidential elections; Gustavo Petro; peace process; economic policy; party system.

As eleições presidenciais da Colômbia estão agendadas para o próximo dia 29 de maio, com segundo turno previsto para o dia 19 de junho. Trata-se de uma disputa relevante para os rumos do país nas próximas décadas, tanto por definir a continuidade do processo de paz em curso com as antigas Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC), quanto pelo potencial reposicionamento do Estado colombiano em sua relação com a sociedade e a economia. Depois de obterem resultados importantes nas eleições legislativas de março de 2022, partidos e movimentos de centro-esquerda podem estar próximos de conquistar a presidência da Colômbia. Neste artigo, apresentamos os principais temas da disputa presidencial de 2022 e as posições dos candidatos que despontam nas pesquisas de opinião.

O processo de paz é um dos temas centrais das eleições presidenciais deste ano. As eleições colombianas anteriores, realizadas em 2018, ficaram marcadas pela participação política da antiga guerrilha das FARC, convertida em organização partidária após o acordo firmado com o governo colombiano. O Acordo Final de Paz de 2016 estabeleceu não apenas o encerramento do confronto armado entre o Estado e as FARC-EP, mas também compromissos de reintegração política, econômica e social dos ex-combatentes, reforma rural e garantias de segurança para as populações afetadas pelo conflito (Nações Unidas, 2017).

fonte: https://www.cne.gov.co/prensa/comunicados-oficiales

A partir de 2017, iniciou-se o processo de reinserção social dos antigos guerrilheiros das FARC. A Missão das Nações Unidas verificou a conclusão do processo de entrega e neutralização das armas naquele ano, dando início a uma nova etapa de implementação do acordo e de reintegração dos ex-combatentes à vida civil (Nações Unidas, 2017).

Parte da população colombiana, contudo, considera que diversos compromissos do acordo não foram plenamente implementados. O presidente Iván Duque Márquez, eleito em 2018, chegou ao governo defendendo alterações em pontos do acordo, mas não obteve força política suficiente para promover mudanças substanciais.

Outro motivo de preocupação relacionado à segurança das eleições é a atuação de organizações armadas associadas ao narcotráfico. No início de maio de 2022, após a extradição de Dairo Antonio Úsuga David, conhecido como “Otoniel”, para os Estados Unidos, o Clan del Golfo promoveu um chamado paro armado que afetou dezenas de municípios colombianos. A violência incluiu bloqueios de estradas, incêndios de veículos, ameaças e interrupções de atividades econômicas e serviços públicos, colocando novamente a segurança no centro do debate político (United States Department of Justice, 2022; Nações Unidas, 2022).

Outra questão central das eleições presidenciais de 2022 é o cenário econômico, profundamente afetado pela pandemia de Covid-19. Antes da pandemia, a Colômbia vinha registrando crescimento econômico, mas em 2020 sofreu uma das maiores contrações de sua história recente. Estimativas disponíveis naquele momento indicavam queda de aproximadamente 6,8% do Produto Interno Bruto, além de aumento expressivo da pobreza e deterioração do mercado de trabalho (Banco Mundial, 2022).

A crise prejudicou especialmente o comércio e o emprego e aprofundou vulnerabilidades sociais. O governo respondeu com medidas emergenciais, incluindo transferências para famílias em situação de vulnerabilidade e instrumentos de apoio ao setor produtivo. A recuperação econômica começou em 2021 e ganhou força em 2022, embora seus benefícios não tenham se distribuído de maneira homogênea entre a população colombiana (Banco Mundial, 2022).

Protesto em dezembro de 2019, Bogotá, Colômbia. Fonte: Photo by Ricardo Arce on Unsplash

Essas condições econômicas foram absorvidas por uma conjuntura política turbulenta. Em abril de 2021 ocorreram grandes protestos em diversas cidades colombianas, ainda em meio à pandemia. As manifestações apresentaram caráter heterogêneo e incorporaram pautas como a rejeição à reforma tributária, reivindicações de povos indígenas, violência policial, desigualdade social e implementação do Acordo de Paz.

A organização Temblores registrou graves episódios de violência policial durante as manifestações. Nos primeiros dias do protesto, a entidade contabilizou 940 casos de violência policial; à medida que as mobilizações continuaram, os números documentados aumentaram significativamente (Temblores, 2021). A dimensão das mobilizações reforçou uma percepção generalizada de insatisfação com o governo de Iván Duque.

A situação política da Colômbia às vésperas das eleições presidenciais de 2022 parece favorecer candidaturas de oposição e, em especial, aquelas situadas à esquerda do espectro político. O principal nome desse campo é Gustavo Petro, candidato da coalizão Pacto Histórico. Com longa trajetória política, incluindo mandatos como senador e prefeito de Bogotá, Petro aparece bem colocado nas pesquisas de intenção de voto.

Seu programa de governo defende uma reforma agrária, maior apoio às comunidades rurais e políticas direcionadas às populações afrodescendentes, palenqueras e indígenas. Também propõe mudanças no modelo produtivo, buscando ampliar o papel do Estado, fortalecer a produção agrícola e reduzir a dependência econômica de atividades extrativas (Petro, 2022). Análises posteriores dos programas eleitorais confirmaram que a candidatura de Petro apresentou uma proposta econômica mais claramente pós-neoliberal do que as candidaturas situadas à direita na disputa colombiana de 2022 (Oliveira; Pedron, 2025).

Gustavo Petro e Francia Márquez. Fonte: https://gustavopetro.co/

Além disso, Petro propõe substituir atividades econômicas ilegais por alternativas associadas ao trabalho formal, à produção agrícola e à distribuição de alimentos por pequenos produtores. Essas propostas representam um contraponto importante ao governo de Iván Duque e buscam mobilizar setores rurais e grupos historicamente marginalizados. Em política externa, sua candidatura sinaliza maior valorização das relações regionais latino-americanas.

Federico Gutiérrez é outro nome importante da disputa presidencial e aparece, neste momento, como um dos candidatos com melhores possibilidades de enfrentar Petro em eventual segundo turno. Engenheiro civil, ex-vereador e ex-prefeito de Medellín, Gutiérrez concorre pela coalizão Equipo por Colombia e procura representar o campo político da direita, contando com apoio de setores ligados ao Centro Democrático.

Seu programa de governo é estruturado em torno dos eixos “ordem” e “oportunidades”. Entre os temas destacados estão o combate à corrupção, o fortalecimento dos mecanismos de investigação, a segurança pública, o combate às organizações criminosas, a geração de empregos e a ampliação de oportunidades sociais (Gutiérrez, 2022).

O programa também promete continuar a implementação das medidas estabelecidas pelo Acordo de Paz entre o governo colombiano e as FARC. No campo econômico, Gutiérrez associa crescimento e fortalecimento produtivo à geração de empregos. Em política externa, propõe renovar a posição internacional da Colômbia e ampliar a cooperação com países geograficamente próximos.

O cenário de uma eventual vitória de Gutiérrez apresenta, contudo, algumas incertezas. A elevada impopularidade do governo de Iván Duque pode tornar problemática a associação entre sua candidatura e setores governistas. Além disso, posições mais duras em relação às negociações com grupos armados podem ampliar tensões em uma sociedade ainda marcada por conflitos associados à segurança e à implementação do acordo de paz.

Gustavo Petro e Federico Gutiérrez aparecem, nas pesquisas disponíveis no momento da publicação deste texto, entre os candidatos com maiores probabilidades de avançar ao segundo turno. Outras duas candidaturas, entretanto, merecem atenção.

Uma delas é a de Sergio Fajardo, candidato da Coalición Centro Esperanza, que pode ser descrito como centrista. Ex-prefeito de Medellín e ex-governador de Antioquia, Fajardo construiu sua imagem política em torno da administração pública, da educação e de sua trajetória acadêmica. Seu programa coloca no centro da agenda a educação, a ciência, a tecnologia, a inovação, a cultura e o empreendedorismo (Fajardo, 2022).

Uma última candidatura eleitoralmente relevante é a de Rodolfo Hernández, candidato da Liga de Gobernantes Anticorrupción. Ele procura apresentar-se como um candidato externo às estruturas políticas tradicionais e constrói sua campanha sobretudo em torno do combate à corrupção e da crítica às elites políticas.

Por suas declarações polêmicas, seu estilo coloquial de comunicação e sua estratégia de apresentação como um administrador não pertencente à política tradicional, Hernández tem sido associado a uma forma de candidatura antipolítica e populista. Seu programa enfatiza o combate à corrupção, austeridade administrativa, emprego e políticas sociais, incluindo saúde e educação (Hernández, 2022). Estudos posteriores sobre a eleição destacaram justamente o caráter antipolítico de sua candidatura e sua capacidade de combinar elementos ideológicos distintos em torno de uma forte retórica anticorrupção.

Hernández também defende a continuidade do processo de paz. Embora seja frequentemente posicionado no campo da centro-direita, algumas de suas propostas sociais e a defesa de uma participação ativa do Estado em determinadas políticas públicas tornam sua plataforma distinta da direita liberal convencional.

As diferenças políticas e ideológicas entre os quatro principais candidatos são marcantes. Gustavo Petro conseguiu mobilizar parte importante da insatisfação social em torno de sua candidatura, representando uma rara possibilidade de vitória presidencial de uma força de esquerda na Colômbia. Federico Gutiérrez apresenta propostas mais alinhadas à direita, com ênfase em segurança pública, ordem e combate à corrupção, embora sua proximidade política com o governo de Iván Duque possa representar um obstáculo eleitoral.

Sergio Fajardo busca projetar uma imagem de centro, valorizando educação, conhecimento e renovação política. Rodolfo Hernández, por sua vez, mobiliza uma forte retórica anticorrupção e uma imagem de candidato externo às estruturas políticas tradicionais.

Às vésperas da votação de 29 de maio de 2022, portanto, a eleição presidencial colombiana apresenta uma competição marcada simultaneamente pelos efeitos do processo de paz, pelas consequências sociais e econômicas da pandemia, pelas mobilizações de 2021 e por uma transformação importante das alternativas ideológicas disponíveis aos eleitores.

Referências

BANCO MUNDIAL. Colombia Competitiveness and Recovery Development Policy Loan. Washington, DC: World Bank, 2022.

FAJARDO, Sergio. Este es el momento: programa de gobierno 2022–2026. Bogotá, 2022.

GUTIÉRREZ, Federico. Colombia: un país en orden y con oportunidades. Bases programa de gobierno 2022–2026. Bogotá, 2022.

HERNÁNDEZ, Rodolfo. Programa de gobierno Rodolfo Hernández 2022–2026: no robar, no mentir, no traicionar. Bogotá, 2022.

NAÇÕES UNIDAS. United Nations Verification Mission in Colombia: mandate. New York: United Nations, 2017.

NAÇÕES UNIDAS. Report of the Secretary-General on the United Nations Verification Mission in Colombia. S/2022/513. New York: United Nations, 2022.

OLIVEIRA, Augusto Neftali Corte de; PEDRON, Laura Freitas. Consenso de Washington e pós-neoliberalismo nas eleições do Brasil, Chile e Colômbia: há uma nova onda rosa? Revista Uruguaya de Ciencia Política, v. 34, 2025. DOI: 10.26851/RUCP.34.17.

PETRO, Gustavo. Colombia, potencia mundial de la vida: programa de gobierno 2022–2026. Bogotá, 2022.

TEMBLORES ONG. Informe sobre violência policial no marco do Paro Nacional de 2021. Bogotá, 2021.

UNITED STATES DEPARTMENT OF JUSTICE. Leader of the violent “Clan del Golfo” multi-billion dollar drug trafficking organization extradited from Colombia to face federal indictment. Washington, DC, 5 maio 2022.a conservadora na disputa do próximo dia 29 de maio.

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