Autoria: Erik Saldanha Espíndola.
Resumo: O texto analisa as eleições parlamentares da Armênia de 2026 a partir da interação entre democratização, transformação das elites políticas e disputas geopolíticas no Cáucaso. Situando historicamente a ascensão de Nikol Pashinyan, a Revolução de Veludo, os conflitos em Nagorno-Karabakh e o enfraquecimento da relação com a Rússia, a análise examina os principais atores da eleição e a vitória do partido Contrato Civil. O pleito é interpretado também no contexto da crescente aproximação armênia com países europeus e das disputas de influência entre Rússia e Ocidente.
Palavras-chave: Armênia; eleições; Nikol Pashinyan; democracia; Rússia; Nagorno-Karabakh; geopolítica; Cáucaso.
Abstract: The essay analyzes Armenia’s 2026 parliamentary elections through the interaction between democratization, political elite transformation, and geopolitical competition in the Caucasus. By historically situating the rise of Nikol Pashinyan, the Velvet Revolution, the conflicts over Nagorno-Karabakh, and the weakening of Armenia’s relationship with Russia, the analysis examines the main electoral actors and the victory of the Civil Contract party. The election is also interpreted in the context of Armenia’s growing rapprochement with European countries and the broader competition for influence between Russia and the West.
Keywords: Armenia; elections; Nikol Pashinyan; democracy; Russia; Nagorno-Karabakh; geopolitics; Caucasus.
As eleições armênias de 2026 representaram uma virada de chave na política nacional daquele país, dominado historicamente por elites que descendiam do período soviético e assolada por uma guerra que esteve congelada por mais de 30 anos. Os resultados claros deram vitória a Nikol Pashynian em 7 junho de 2026, do partido Contrato Civil, que disputou principalmente contra os partidos Armênia Forte e Aliança Armênia. Ao contrário de eleições em nações mais ocidentais, as dicotomias de esquerda e direita pouco tiveram importância, como será discutido nesse boletim de conjuntura. Antes se faz importante situar a estrutura política armênia, o que incluí a política nacional e internacional.

25 de setembro de 2001. Naquele dia, Poghos Poghosyan, um cidadão armênio, sentado em uma cafeteria de Yerevan, capital da República da Armênia, avista Robert Kocharyan, presidente da Armênia e o cumprimenta dizendo: “Privet Rob”. A resposta imediata do presidente foi ordenar que seus guarda-costas espancassem o cidadão naquele instante, culminando na sua morte. O que motivou a ação violenta foi a interpretação do cumprimento como um insulto, uma vez que Kocharyan não queria ser colocado não queria ser “rebaixado” a tamanha informalidade. A situação desencadeou uma série de protestos, dos quais justamente passaram a adotar faixas e camisas escrito “Privet Rob” (Elliot, 2020).
O episódio ilustra os moldes nos quais a política em um Estado, isolado e pequeno no centro do Cáucaso e recém independente da dissolução da União Soviética, opera. A República da Armênia, desde os anos 90 e 2000, foi classificada como um país de regime “híbrido”, também chamado de autoritarismo competitivo, dominado pelo Partido Republicano, de Kocharyan. O partido foi altamente moldado pelo Movimento Karabakh, relacionado a Guerra de Nagorno Karabakh (1988-1994) com o Azerbaijão. Esse conflito, por sua vez, eclodiu quando uma população armênia no Azerbaijão, no enclave de Nagorno Karabakh formaram uma rebelião temendo sofrer um genocídio e controlando próprio enclave com apoio militar da Armênia (De Waal, 2013). A guerra e seu cessar-fogo foram justificativas para um autoritarismo longevo, bem como a criação de um inimigo externo.
A administração do Partido Republicano também foi manchada pelos casos de corrupção, melhor investigados em anos mais recentes, o que incluiu branqueamento de capitais, suborno e abuso de poder. As elites pós-URSS permenceram no poder para mandatos além de Robert Kocharyan (1998-2008), elegendo em seguida Serzh Sargsyan (2008-2018), que continuou o legado autoritário da Armênia. Fraudes eleitorais foram registradas em 2008, com Kocharyan ordenando ilegalmente o uso da força contra manifestantes, em favor da passagem de poder ao seu sucessor. (Barbas; Bezar, 2026)
Para a manutenção do mandato de Sargsyan, foi tentada uma reforma constitucional para tornar a Armênia completamente parlamentarista, o que foi interpretado como um movimento para entender os mandatos do presidente. Contudo, em um contexto de Revoluções Coloridas (que afetaram em grande medida as ex-repúblicas soviéticas), eclode a Revolução de Veludo em 2018, protagonizada por manifestantes insatisfeitos com a corrupção e o autoritarismo. Em grande medida, essas manifestações foram encabeçadas na imagem de Nikol Pashynian, jornalista e ativista pela democracia no país, que foi detido ao longo do processo das manifestações. Com a falta de apoio ao governo, Sargsyan se retira do poder, abrindo espaço para Pashynian e seu partido, Contrato Civil serem eleitos naquele pleito (Ohanyan; Kopalnyan, 2022).
Do ponto de vista regional, o país que mais forneceu apoio militar e uma melhor parceria econômica aos armênios foi a Rússia. Oficialmente, ambos os Estados são aliados, por meio da Organização do tratado de Segurança Coletiva (OTSC) em uma tentativa de balancear a disputa entre Armênia e Azerbaijão, o que implicou em uma longa boa relação entre Moscou e a elite do Partido Republicano. Foram assinadas diversas parcerias entre ambos, seja por investimento econômico, seja por apoio militar. A Rússia ainda resguarda sua maior base militar fora de seu território na cidade de Gyumri, a poucos quilômetros da Turquia (membro da OTAN). Consequentemente, para a Federação Russa a Armênia representa um aliado geograficamente bem localizado em um de seus flancos mais importantes, o Cáucaso (Asker, 2017).
A queda das antigas elites provocou um distúrbio nessa aliança, porém a mudança de regime por si só não seria de fato capaz de extinguir uma cooperação profunda a nível securitário. Pashynian e seus partidários de fato possuíram um discurso pela democracia e representação popular na Revolução de Veludo de 2018, o que sugeriu melhores relações com a União Europeia. Todavia, não houve um discurso anti-moscou, tendo em mente que a aliança com a Rússia impedia um retorno da Guerra com o Azerbaijão, ou era o que os armênios pelo menos esperaram (Ohanyan; Kopalyan, 2022)
Em setembro de 2020, o Azerbaijão, apoiado por drones turcos e tecnologias israelenses lança um ataque contra as posições armênias no enclave disputado de Nagorno Karabakh, um território oficialmente parte do Azerbaijão, mas majoritariamente populado por armênios (em 2020, quase a totalidade da população local). O ataque reascendeu a guerra, que colocou Nikol Pashynian e sua administração em uma prova de fogo, com o retorno da Guerra, cuja duração teve 44 dias, mas que terminou em vitória para Baku, capital do Azerbaijão. Em seguida, um cessar fogo foi possível pela mediação da Rússia de Putin, que muito pouco enviou apoio aos aliados armênios, mas com o pretexto de Nagorno Karabakh estar em solo azeri, não seria responsabilidade russa contra-atacar o Azerbaijão em nome de um aliado. Assim, Moscou se comprometeu a enviar peacekeepings para a região, enquanto alguns dos territórios ao redor de Nagorno Karabakh foram sendo reincorporados ao Azerbaijão. Ao mesmo tempo, a passagem de Lachin, única via de acesso de Nagorno Karabakh para Armênia, estaria sob autoridade russa. O restante de Karabakh ficou sob ocupação dos rebeldes, cujo controle já estava em suas mãos desde os anos 90.
A crise entre Yerevan e Baku não cessou, no entanto, com crises fronteiriças constantes entre 2021 e 2022 ocorrendo. Entretanto, o momento crítico de fato ocorrera a partir de dezembro de 2022, quando supostos “eco ativistas” ocuparam o corredor de Lachin, fechando o acesso de Nagorno Karabakh à República da Armênia. O resultado foi sentido nos meses seguintes, através da escassez de comida, remédios, produtos em geral, corte de acesso a internet e luz, criando uma crise humanitária sem precedentes. Por 9 meses, esse ficou conhecido como Bloqueio de Nagorno Karabakh, terminando em setembro de 2023 com ataques diretos aos rebeldes e cidadão ainda remanentes. Como consequência, toda a população de Karabakh se retirou do enclave e passou para o status de refugiada para a Armênia. Na prática, conforme Luís Moreno Ocampo (2023), esta foi uma tentativa de genocídio da parte do Azerbaijão, apesar dos termos para classificar o evento sejam debatíveis, podendo ainda ser chamado de limpeza étnica.
Além da crise democrática histórica da Armênia desde a independência, a derrota na guerra desestabilizou totalmente o país, que culpou a Rússia pelos acontecimentos e por não ter sido protegida. É obvio, entretanto, que a Rússia não poderia apoiar seu aliado em meio a sua Guerra da Ucrânia (2022-…), porém expos os limites da ação russa na região com seus aliados. Yerevan, assim, guinou de modo vertiginoso ao ocidente, em especial União Europeia e Estados Unidos. Os EUA, por sua vez, intermediaram um tratado de paz entre Baku e Yerevan em agosto de 2025, em uma tentativa de encerrar 35 anos de guerra.
O cenário no qual a Armênia esteve inserida após 2025 foi objetivamente um dos mais importantes de sua história recente, e ainda, o país deveria enfrentar suas eleições em 7 junho de 2026. Entre os atores dessa disputa, se destacam o primeiro-ministro Nikol Pashynian, em primeiro na média das pesquisas e que liderou o país nos anos de crise recente e que tentou uma reeleição sua e de seu partido, Contrato Civil. Ao longo desse período o primeiro-ministro tentou fortalecer sua imagem enquanto democrata, mas coletou críticas de diferentes setores. Do ponto de vista internacional, anunciou a retirada da Armênia da aliança com a Rússia, a OTSC, coletando desagrados com Moscou após as crises quanto ao comprometimento russo em relação a Armênia.
Nacionalmente, Nikol Pashynian entrou em uma crise com o clero armênio, mais especificamente a Igreja Apostólica da Armênia. Após 2020, Catholicos Karenkin II, patriarca da igreja armênia, acusou Pashynian de ser o responsável pela derrota em Karabakh, e que o governo armênio estaria tentando normalizar relações com o inimigo. Por outro lado, Pashynian devolveu as acusações, afirmando que o clero armênio seria corrupto e imoral, denunciando o líder Karenkin de possuir um filho, contrariando o celibato. Ainda mais grave, Pashynian fez acusações de que a Igreja Armênia planejou um golpe de Estado à seu governo, organizando prisões entre 14 suspeitos. Ademais, sua relação com os armênios de Nagorno Karabakh ficou estremecida, inicialmente pelas derrotas militares, mas também quando anunciou conversas de paz, o que piorou com o acordo assinado em 2025. Pashynian acabou protagonizando um caso de hostilidade com uma refugiada após uma discussão em um metrô, chamando-a de “desertora/fugitiva” em tom ofensivo (Aljazeera, 2026; Barseghyan, 2026).
Em segundo lugar nas pesquisas, estava a nova mente por de trás da oposição, Samvel Karapetyan, líder do partido Armênia Forte. Este, por sua vez ficou conhecido por sua atuação como empresário russo-armênio, apoiador da causa de Nagorno Karabakh, com laços estreitos com Moscou e com a Igreja Apostólica da Armênia. Karapetyan possui uma fortuna avaliada em 4,4 bilhões de dólares, estando inserido na indústria energética do país, em ramos alimentícios e em projetos filantrópicos, carregando poder econômico na Armênia e com ligações russas. Dentro de sua filantropia, agiu em projetos relacionados a Igreja Apostólica Armênia, dessa forma, na crise entre o governo e o clero, se posicionou em favor Karenkin, sendo provisoriamente preso por Nikol Pashynian no caso da suposta tentativa de golpe de estado. Além disso, teve parte de suas propriedades detidas ou interditadas, mobilizando uma oposição política da sua parte, até em junho de 2025 anunciar sua participação no pleito de 2026 (Estação Armênia, 2026)
Em terceiro lugar, esteve Robert Kocharyan (“Privet Rob” para os opositores), do partido Aliança Armênia. Antes de ser o centro das atenções pelo atentado contra um cidadão que o cumprimentou de modo informal, Kocharyan foi um herói da Primeira Guerra de Nagorno Karabakh, originário daquela região e exercendo o comando de presidente de Nagorno Karabakh (1994-1998). Seus anos de governo na Armênia tiveram um bom crescimento econômico, mas a violência e a corrupção desgastaram o regime. Em 2019, um ano após Pashynian assumir o governo, Kocharyan foi julgado por abuso de poder nas repressões das eleições de 2008, mas foi absolvido em 2021. Conforme o especialista em Cáucaso, Alexander Iskandaryan (2026), Kocharyan é, na prática, como um representante dos interesses russos na Armênia. Kocharyan ainda exerceu ameaças a Pashynian nas vésperas da eleição de 2026, ao afirmar que “poderia sofrer sérias consequências” caso não deixasse o cargo (Barbas; Brezar 2026; Axar, 2026).
Antes da eleição, 2 episódios de destaque passaram a ocorrer por conta da importância do evento para a geopolítica europeia. Em 5 de maio de 2026, a União Europeia promoveu uma cimeira na Armênia, com a presença de todos os principais líderes europeus, como Emmanuel Macron (França), Georgia Meloni (Itália), Keir Starmer(Reino Unido) e inclusive Volodymir Zelensky (Ucrânia). O evento ocorreu em uma tentativa de aproximação do bloco com a Armênia, de maneira mútua, onde se discutiu a questão da democracia na Armênia, sua segurança e investimentos. Nesse sentido, a Federação Russa respondeu ao acontecimento, e em provocação as eleições no país, através de ameaças de suspensão de gás e na suspensão de importação de determinados produtos armênios à Rússia (CNN, 2026). Na prática, a Armênia se tornou o novo alvo da geopolítica de Ocidente e Rússia.
Os resultados do pleito foram claros, e contaram com ampla participação popular, com quase 60% de comparecimento. Em 7 de junho de 2026 Nikol Pashynian e seu partido foram vencedores de 49,8% dos votos, garantindo 64 assentos. Uma redução de 7 assentos, possivelmente relacionados as crises envolvendo os outros atores da eleição. O partido Armênia Forte, de Karapetyan, assegurou 23,3% dos votos, com 29 cadeiras, sendo um partido novo no parlamento. A Aliança Armênia, de Kocharyan, por outro lado, foi o maior derrotado, com 9,95% dos votos, 12 assentos, mas uma redução de menos 17 em relação a última eleição. Com a vitória, Pashynian possivelmente pode continuar sua política de apaziguamento com o Azerbaijão, um diálogo diverso com nações europeias, tentando ainda não cortar relações com a Rússia, além de promover tentativas de desenvolver o país e remover as antigas elites do poder. O desempenho dos partidos de oposição (Armênia Forte e Aliança Armênia) foi melhor do que o esperado, com esforços russos percebidos em favor desses partidos (Papachirstou, 2026).
As eleições da Armênia de 2026 revelaram uma árdua trajetória de um país que persegue sua sobrevivência em uma das mais instáveis regiões do mundo, mesmo sendo afetada por atores nacionais divergentes e um histórico autoritário e violento. Apesar de se afirmar enquanto um representante democrata para a Armênia, Nikol Pashynian coleta críticas quanto a prisões arbitrárias, o que movimentou a formação oposições e crises internas e externas de destaque. Entretanto, o fim de um antigo “reinado” para “Rob” aparece no caminho, através de uma mudança nas elites nacionais por novos representantes. Provavelmente diremos “goodbye Rob”, até talvez ser necessário falar “privet Nik”. Além disso, essa eleição ganha importância pela geopolítica que a afetou, abrindo olhares para o futuro político no mundo, o qual pode ser afetado pela dinâmica de poder entre as grandes potências.
Referências
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