Vira-latas não jogam boomerang por diversão: o tarifaço Trump e o ativismo transnacional dos Bolsonaristas

Por Teresa Cristina Schneider Marques, Doutora em Ciência Política, professora de Relações Internacionais, líder do OAPoc>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>

Imagem extraída de: Bevins, Vicent. Trumps of the Tropics: Brazil’s Far Right Plots Its Return. New York Times. 4 de set. de 2024

O termo “vira-lata”, usado como uma crítica aos posicionamentos de inferioridade assumidos por brasileiros perante estrangeiros, foi mobilizado inicialmente por Nelson Rodrigues, em um texto publicado em 1958, pouco antes da estreia do Brasil na copa do mundo de 1958. No texto, o autor argumenta que o jogador brasileiro, embora hábil e dotado de muitas habilidades, se curvava perante o jogador inglês. O próprio Nelson argumenta que isso não valeria apenas para o futebol, mas também para outras áreas. O uso do termo se popularizou ao longo das décadas seguintes e passou a ser utilizado de forma geral como crítica à todo tipo de relação de submissão voluntária mantida pelo brasileiro perante o estrangeiro, sobretudo aquele oriundo do norte global. Essa relação de submissão se caracteriza pela lógica vertical, ao invés da horizontal, que motiva a troca e o aprendizado mútuo entre sujeitos de origens geográficas distintas.

De acordo com Frantz Fanon, psiquiatra francês natural das Antilhas francesas e teórico das Relações Internacionais, o colonialismo gerou como consequência um transtorno psicológico na relação entre sujeitos colonizados e colonizadores: os últimos se sentiriam exageradamente melhores que os colonizados, o que configuraria um transtorno psíquico de superioridade perante os colonizados. Os últimos, por sua vez, passaram a desenvolver um transtorno psicológico de inferioridade. Esse transtorno de superioridade dos colonizadores, portanto, seria a origem de desigualdades e violências de naturezas diversas que marcam a relação entre o norte e o sul global. Segundo Aníbal Quijano, esse sentimento de superioridade foi adaptado pelos EUA na sua relação com a América Latina. Embora os Estados Unidos da América do Norte também seja um país que viveu um processo de colonização, se apropriou das ideias de superioridade europeia e as adaptou ao seu contexto e seus interesses. A partir de então, passou a “mobilizar recursos para a produção de conhecimento ocidental enraizada em propósitos imperiais” que fortalecem continuadamente essa ideia de superioridade, influenciando assim as relações internacionais em múltiplos níveis.

Embora Fanon fale em “distúrbios” de “inferioridade” e “superioridade”, a articulação transnacional dos Bolsonaros evidencia a racionalidade dessa estratégia boomerang. Tal conceito cunhado por Kathryn Sikkink e Margareth Keck faz referência ao movimento feito por atores ancorados em um nível nacional (mas que transitam entre outros níveis) quando “lançam” denúncias às instituições internacionais ou outro Estado mais forte por meio de diversas formas de ativismo, na expectativa de que elas retornem ao país de origem com maior legitimidade e pressão por mudanças que lhe favoreçam. Segundo as autoras, os atores tendem a fazer esse movimento quando os recursos em nível nacional são rarefeitos ou objetos de disputas acirradas. É o caso do cenário político no Brasil. De qualquer forma, é importante apontar que essa busca por recursos em nível internacional e transnacional é componente estruturante do repertório de ação da direita global, uma vez que há “um projeto político e visão de mundo compartilhada”, apesar das diferenças verificadas em cada país por autores como Mudde. Como colocado por Breno Bringel, “Na base do bolsonarismo existe de fato uma articulação [global] entre um projeto radicalmente liberal que está vinculado a um novo autoritarismo social”.

A “ingenuidade” intrínseca ao conceito de “vira-lata” que traz à luz a imagem de um cachorro que se curva com uma fidelidade inabalável mesmo após um “tapa” enquanto um “distúrbio de inferioridade” é ilustrativa, mas explica mais as comemorações e agradecimentos à Trump feitos por milhares de brasileiros que efetivamente serão afetados negativamente pelo tarifaço de Trump, do que a posição dos membros da elite política bolsonarista. Estes últimos, com essa ação transnacional, de forma muito racional, almejam concluir o movimento boomerang e garantir a manutenção dos lucros e o alcance do sucesso desse autoritarismo social e das posições de poder que almejam em 2026, à despeito dos crimes cometidos por eles em julgamento pelas instituições brasileiras e às custas dos interesses nacionais e do bem-estar da população. Para eles, há um cálculo claro, que está sendo colocado em marcha de forma mais acelerada no mínimo desde 2022, quando as históricas articulações transnacionais da direita destacadas por Caldeira Neto e Magalhães foram intensificadas pelas conexões entre o bolsonarismo e o movimento MAGA, de acordo com os dados preliminares da pesquisa que estou desenvolvendo sobre emigrantes brasileiros bolsonaristas nos Estados Unidos. Dito de outro modo, os custos e as consequências dos tarifaços não são deles, mas sim do povo e das instituições brasileiras, que eles não representam mais. Para eles, assim como para Trump, interessa fortalecer a direita global e enfrentar toda ameaça – sobretudo quando oriunda do BRICS – à posição dessa força conservadora global que tem nos EUA a sua principal ancoragem. Portanto, trata-se de um cálculo racional, extremamente focado em ganhos próprios. Nas próximas semanas, veremos os resultados dessa manobra.

As críticas às decisões políticas assumidas por opositores são válidas em democracias e os intercâmbios colaborativos transnacionais são parte do jogo político. Todavia, os atores brasileiros, independente do time e da arena no qual jogam – para voltar ao Nelson Rodrigues –, não devem abandonar o compromisso com os princípios que garantem identidade à presença do Brasil no cenário internacional, tais como o princípio de não intervenção em assuntos internos, a paz e a autonomia. Creio que aí está o limite.

Sobre a autora:

Doutora (2011) em Ciência Política pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), com estágio doutoral (Doutorado Sanduíche) em Sociologia das Relações Internacionais no Institut d’Études Politiques de Paris (Sciences Po). Tem experiência nas áreas de Relações Internacionais e Ciências Sociais. Atua principalmente nos seguintes temas: Participação política e ativismo transnacional; Migrações e Organizações Internacionais. Tem uma filha e teve 120 dias de licença-maternidade, entre 09 de abril de 2017 e 06 de agosto de 2017.

Referências:

BRINGEL, Breno. Entrevista: “Bolsonarismo é uma articulação de radicalismo liberal com autoritarismo social”. RFI. 22 de junho de 2019. Disponível em: https://www.rfi.fr/br/brasil/20190621-base-do-bolsonarismo-e-uma-articulacao-de-radicalismo-liberal-com-autoritarismo-soci

FANON, Franz. Os condenados da terra. Juiz de Fora: Editora UFJF, 2010.

Magalhães, D.; Caldeira Neto, O. As vias de transnacionalização da ultradireita brasileira. CEBRI-Revista: Brazilian Journal of International Affairs, (11). 2024. Recuperado de https://cebri-revista.emnuvens.com.br/revista/article/view/231

KECK, Margareth; SIKKINK, Kathryn. Activists beyond borders: advocacy networks in international politics. Ithaca: Cornell, 1994.

MUDDE, Cas. The Far-right today. Cambridge, Polity Press, 2019.

RODRIGUES, Nelson. À sombra das chuteiras imortais. São Paulo: Cia. das Letras, 1993. p.51- 52: Complexo de vira-latas

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