de Oliveira, A.N.C., Geiger, L.M. & Ugar, E.T. The United Nations General Assembly in a Multipolar World Order: An Analysis of Roll Call Votes on UNGA Resolutions Addressing Russia’s Military Actions in Ukraine. Chin. Polit. Sci. Rev. (2025). https://doi.org/10.1007/s41111-025-00292-4
A guerra na Ucrânia tem sido examinada sob diversas perspectivas e recebeu significativa atenção acadêmica voltada à compreensão de suas origens, desdobramentos centrais e implicações globais. Em um período de transição no equilíbrio de poder global rumo a uma ordem mundial multipolar, o conflito funciona tanto como sintoma dessa transformação quanto como catalisador da atual reconfiguração geopolítica internacional. Como uma violação da Carta das Nações Unidas, a guerra provocou debates, votações e aprovações de resoluções contra a Rússia na Assembleia Geral das Nações Unidas (AGNU). Em vez de se somar à literatura já existente com foco nas causas da crise, este artigo busca analisar e propor quadros interpretativos para compreender o posicionamento da comunidade internacional na AGNU.
Esta pesquisa baseia-se na vasta literatura sobre os determinantes do comportamento dos Estados-membros na AGNU para examinar o caso da 11ª Sessão Especial de Emergência (ES-11) e as seis resoluções votadas e aprovadas entre 2022 e 2023. A sessão aborda explicitamente o conflito entre Rússia e Ucrânia, caracterizado como um evento transformador na política internacional (Mearsheimer 2023). O período de transição na ordem geopolítica global se reflete amplamente na transformação dos padrões de comportamento adotados na AGNU (Voeten 2000; Carter e Stone 2015; Woo e Chung 2017; Pamp, Dendorfer e Thurner 2018; Gunes e Ozkaleli 2022).

Este estudo contribui de forma significativa ao debate ao oferecer uma perspectiva clara voltada à compreensão dos fatores que explicam a adesão ou rejeição, por parte dos Estados-membros, às resoluções contra a Rússia durante a ES-11. A pergunta central que orienta a investigação é: quais fatores explicam os padrões de votação dos Estados-membros na 11ª Sessão Especial de Emergência da AGNU, e o que esses padrões indicam sobre a ordem mundial multipolar emergente? Partindo da suposição de que os posicionamentos adotados nas resoluções da ES-11 refletem a transição em curso no sistema internacional e possuem relevância para a consolidação de uma ordem mundial multipolar, o estudo busca identificar os fatores que explicam a adesão ou rejeição às resoluções condenando a Rússia.
O artigo está estruturado da seguinte forma: a primeira seção apresenta o referencial teórico, fundamentado em autores das Relações Internacionais (RI) que analisam as transformações globais sob uma perspectiva sistêmica, como Yan (2021), Xing (2014) e Mearsheimer (2019, 2023). Essa seção demonstra que, sob essa ótica, a ordem internacional atual passa por profundas mudanças em sua polaridade. Com a reemergência da Rússia e, especialmente, da China como grandes potências, o equilíbrio global de poder torna-se cada vez mais complexo. Essa complexidade revela uma série de crises na ordem liberal em declínio, particularmente quanto à confiança na liderança e legitimidade do sistema liderado pelo Ocidente (Xing 2014; Lee 2024; Wang e Chen 2024; Kim e Park 2024). A seção enfatiza que países ao redor do mundo devem navegar com cautela em uma arena internacional onde diferentes fontes de poder exigem consideração estratégica. Essas transformações geopolíticas se refletem no modo como os Estados se posicionam em fóruns internacionais, como a AGNU.
A segunda seção do artigo formula seis hipóteses específicas sobre o comportamento de voto dos Estados-membros na ES-11 da AGNU, acompanhadas por uma revisão da literatura. Os padrões de votação das delegações da AGNU têm sido há muito foco da atenção acadêmica em política internacional. Para os fins desta investigação, os fatores explicativos foram definidos como: pertencimento ao G77 (Sul Global); pertencimento à OTAN, à União Europeia (UE) e ao G7 (Norte Global); recebimento de ajuda externa dos Estados Unidos (EUA); comércio bilateral com a Rússia; status como fornecedor militar; tipo de regime político; e ideologia do governo.
A terceira seção introduz as seis resoluções da ES-11 e analisa descritivamente os resultados das deliberações da AGNU. A quarta seção apresenta os resultados da metodologia adotada, composta por dois modelos logísticos de corte transversal. O Modelo A inclui todo o conjunto de dados, enquanto o Modelo B exclui os membros da OTAN, UE e G7 devido a limitações na estrutura dos dados e da metodologia. Os modelos demonstram de forma consistente que Estados-membros do G77, aqueles que dependem da Rússia como principal fornecedor militar e aqueles sem regimes democráticos liberais são menos propensos a votar a favor das resoluções que condenam a Rússia. Por outro lado, Estados fora do G77, que dependem de membros da OTAN para suprimentos militares e possuem regimes democráticos liberais, são mais propensos a votar a favor. As interações entre os fatores relevantes e o comportamento das delegações em cada uma das seis resoluções são analisadas separadamente. As duas resoluções com efeitos práticos diretos foram as mais rejeitadas (a suspensão da Rússia do Conselho de Direitos Humanos da ONU e o apoio a um mecanismo de compensação financeira).
A última seção discute as implicações desses achados no contexto mais amplo da ordem mundial multipolar emergente. Destaca-se a lógica por trás da decisão de países do Sul Global de adotar posturas ambíguas e evitar tomar partido na crise da Ucrânia. A lacuna entre prioridades e interesses nacionais dos países do Sul e do Norte Global é uma das principais conclusões, afetando diretamente os padrões de votação na AGNU – com implicações de longo prazo para o sistema internacional. Assim, a guerra na Ucrânia representa um momento decisivo não apenas para a relação entre Ocidente e Rússia, mas também para as dinâmicas mais amplas entre países desenvolvidos e em desenvolvimento.
Embora os votos nas resoluções da AGNU sejam frequentemente considerados indicadores da política externa dos Estados-membros, é importante reconhecer que o ambiente institucional das Nações Unidas não necessariamente reflete as restrições presentes em outros contextos. Portanto, generalizações a partir desta pesquisa devem ser feitas com cautela. A análise sugere que, em uma nova ordem internacional multipolar, a convergência entre países do Sul Global e a estratégia preferida pelos EUA pode ser facilitada por vínculos de segurança e defesa, bem como pela adoção de regimes democráticos liberais. No entanto, esses fatores não eliminam as tensões decorrentes das posições econômicas e prioridades conflitantes entre Sul e Norte Global.
Dessa forma, o estudo demonstra que a estratégia liderada pelos EUA de formação de amplas coalizões ancoradas em uma ordem internacional baseada em valores liberais e no direito internacional (Nye 2015) enfrentará um ambiente internacional mais complexo, pouco propenso a alinhamentos automáticos. Alcançar um consenso diplomático mais amplo com os países do Sul Global exige o reconhecimento da legitimidade de seus interesses e estratégias autônomas. Essa complexidade decorre, em grande medida, dos papéis de China e Rússia como fornecedores de alternativas econômicas e de segurança viáveis, reforçando o caráter multipolar e a importância de uma ordem internacional que valorize o pluralismo dos Estados soberanos e seu direito de participar na definição da agenda global.
A pesquisa apresentada foca especificamente no período da administração Biden, marcado pela convergência entre os EUA e seus aliados europeus. A segunda administração Trump, iniciada em 2025, potencialmente altera esse cenário. A reaproximação com a Rússia e a ambivalência em relação às necessidades militares da Ucrânia levantaram preocupações entre os aliados europeus (Sanger e Erlanger, 2025). De fato, algumas das primeiras ações do novo governo Trump ressoam com os temas analisados neste artigo. Por exemplo, a decisão de encerrar programas de ajuda externa financiados pelo Tesouro dos EUA por meio da USAID (Nolen, 2025) pode ser interpretada à luz da baixa relevância desse fator na explicação do comportamento dos países na AGNU durante a ES-11. Ao refletir sobre a política internacional, o Secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, declarou: “Eventualmente, voltaríamos a um ponto em que haveria um mundo multipolar, com grandes potências em diferentes partes do planeta. É isso que enfrentamos agora com a China e, em certa medida, com a Rússia” (Department of State, 2025). Essas mudanças de política sob a nova administração Trump, portanto, reforçam a urgência de compreender as estruturas de uma nova ordem internacional multipolar, com base nas evidências já disponíveis.
Referências completas disponíveis em:
https://link.springer.com/article/10.1007/s41111-025-00292-4
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