Autor: Henrique Bós, graduando em Relações Internacionais – PUCRS.
O empresário sul-africano Elon Musk, fundador e CEO da empresa de tecnologia aeroespacial SpaceX, com sede nos Estados Unidos, é um dos grandes nomes da exploração espacial moderna, com planos ambiciosos para a exploração e colonização de Marte e de revolucionar o transporte espacial. Do outro lado do mundo, a China vem se consolidando cada vez mais como uma potência espacial, lançando a sua própria estação espacial em 2021, chamada de Tiangong e realizando diversas missões de exploração lunares e de envio de sondas pela galáxia. Esses esforços do programa espacial chinês só foram possíveis devido ao recente crescimento econômico do país, que pode ultrapassar os Estados Unidos em PIB nas próximas décadas. Esses avanços atuais se conectam diretamente à herança do Sputnik 1, foguete soviético lançado em 1957, que deu início a corrida espacial entre as potências da União Soviética e os Estados Unidos.
No dia 04 de outubro de 1957, o programa espacial soviético lançava em órbita o primeiro satélite artificial da história: o Sputnik 1 (Спутник-1). Lançado no Cosmódromo de Baikonur, localizado na RSS do Cazaquistão, o pequeno satélite de 58 centímetros de diâmetro e 83 kg enviava uma mensagem para o mundo: inicia-se a corrida espacial, e os russos saíram na frente.

James R. Killian Jr, presidente do MIT e conselheiro científico chefe do presidente americano Dwight Eisenhower, dissertou sobre as reações da população americana por conta do lançamento do satélite, descrevendo um clima de apreensão e histeria causados por conta desse súbito momento de glória da União Soviética (KILLIAN, 1977). Edward Teller, físico americano, chegou a anunciar na televisão que “Se os russos nos ultrapassarem em tecnologia, há muita pouca dúvida sobre quem determinará o futuro do mundo”. Em geral, a reação do povo americano perante o sucesso do Sputnik foi de frustração, pelo fato dos Estados Unidos não terem chegado ao espaço primeiro, e de apreensão, em um contexto de Guerra Fria.
Para o governo americano, as reações foram mistas. O líder da maioria Democrata no Senado e futuro presidente Lyndon Johnson chegou a fazer uma declaração espantosa para a mídia: “O Império Romano controlava o mundo porque podia construir estradas. Mais tarde, quando se mudou para o mar, o Império Britânico era dominante porque tinha navios. Na era aérea, éramos poderosos porque tínhamos aviões. Agora, os comunistas estabeleceram uma posição no espaço sideral. Não é muito reconfortante ouvir que no ano que vem colocaremos um satélite melhor no ar [sic]. Talvez ele até tenha acabamento cromado e limpadores de para-brisa automáticos” (KILLIAN, 1977). Em contrapartida, para o governo do republicano Eisenhower, o lançamento do Sputnik era um sinal que os Estados Unidos deveriam investir mais em ciência e em especial no seu programa espacial. Nas eleições do ano seguinte, os republicanos sofreriam derrotas massivas tanto na Câmara e Senado, bem como nas eleições estaduais (GUTHRIE e ROBERTS, 1959).
A opinião pública americana após o lançamento do Sputnik era muito diversa e a maioria da população se mostrava preocupada com essa súbita “vantagem” dos soviéticos em relação aos americanos. Segundo uma pesquisa da Gallup (PAYNE, 1994), de outubro de 1957, 49% dos americanos responderam “sim” quando perguntados se a Rússia estava à frente dos Estados Unidos no desenvolvimento de mísseis e foguetes de longa distância. Apenas 32% responderam “não”, enquanto 19% não sabiam responder. Em outra pesquisa realizada em janeiro do ano seguinte, após o lançamento do Sputnik 2 (em novembro de 1957), 67% dos americanos concordavam que a União Soviética estava “à frente na Guerra Fria”. Ainda mais surpreendente, 35% dos americanos pesquisados entre novembro e dezembro de 1957 acreditavam que os russos poderiam “aniquilar a maioria das cidades dos Estados Unidos em questão de horas com seus novos foguetes e mísseis”. Essa afirmação era extremamente exagerada, visto que essa tecnologia de destruição em massa ainda estava a anos de distância de ser concluída.
A mídia americana também auxiliou, e muito, na propagação de um sentimento de angústia e preocupação para a população americana com o lançamento do Sputnik. Jack Lule, professor no Departamento de Jornalismo e Comunicação da Universidade de Lehigh, analisa as reações dos três influentes jornais da época no período de quatro semanas após o lançamento do satélite: o New York Times, St. Louis Post-Dispatch, e o Los Angeles Times (PAYNE, 1994). No dia 5 de outubro, um dia após o lançamento, o LA Times incluiu um subtítulo na sua capa intitulado “Vitória para a Rússia”, na qual o jornal comentou sobre o sucesso do satélite soviético. O NYT declarou que a Rússia “afirmou que havia colocado um instrumento científico no espaço antes dos Estados Unidos”, enquanto o jornal do Missouri chamou o anúncio soviético de uma “afirmação dramática de que a Rússia havia derrotado os Estados Unidos na corrida dos satélites. Em geral, essa “vitória” soviética na corrida espacial também se deu no campo da propaganda política: a reação da mídia americana para o feito do programa espacial da URSS ajudou a criar um clima de medo e derrota na população americana. O Los Angeles Times do dia 6 de outubro iniciava uma reportagem afirmando que “A Rússia obteve uma vitória esmagadora em termos de propaganda e psicológica sobre os Estados Unidos com o lançamento bem-sucedido do primeiro satélite terrestre da história”.
Em contrapartida, a súbita vitória soviética com o lançamento do Sputnik teve como uma de suas consequências, nos Estados Unidos, a amplificação de vozes no campo científico. Nas semanas seguintes ao lançamento, os mesmos jornais que antes reportaram com um certo temor e clima de “derrota” o feito dos russos, agora usavam suas plataformas para dar a voz a cientistas explicarem para o povo americano como os Estados Unidos haviam sido “derrotados” e quais caminhos o país deveria seguir daqui para frente para vencer a corrida espacial. Em suma, “O sucesso soviético foi transformado num catalisador para a reavaliação dos papéis, objetivos e valores dos EUA”, comenta o autor do texto (PAYNE, 1994).
Em março do ano seguinte, era fundada a NASA (National Aeronautics and Space Administration), para servir como a agência do governo federal dos Estados Unidos responsável pelos assuntos de pesquisa e exploração espacial. Histórias oficiais da NASA afirmam que a agência foi uma “reação nos EUA imediatamente após o sucesso da Rússia” (LULE, 1991). Alguns meses antes da fundação da NASA, os EUA fizeram uma tentativa de lançamento de um satélite próprio, com o foguete Vanguard. Em dezembro de 1957, durante o lançamento do foguete, o Vanguard sofreu uma falha logo após sair do solo e acabou explodindo. Esse fracasso foi alvo de zombaria nos jornais americanos.
No mesmo ano de fundação da NASA, a agência lançou o seu primeiro projeto de ambição espacial, o Projeto Mercury, em outubro de 1958. O projeto tinha como objetivo principal desenvolver as tecnologias de exploração espacial americanas e garantir a superioridade dos Estados Unidos sobre os soviéticos no espaço (FLATLIFE, 2021). Entre os meses de agosto de 1959 e novembro de 1961 a NASA realizou 20 missões com foguetes não tripulados, com diferentes graus de sucesso. Essas missões eram principalmente para servir de testes de segurança e confiabilidade dos foguetes da agência.
Foi somente em maio de 1961 que os Estados Unidos conseguiram, pela primeira vez, levar um homem para o espaço, com o astronauta Alan Shepard a bordo do foguete Freedom 7 (o número “7” sendo uma referência a quantidade de astronautas das missões tripuladas do Projeto Mercury) (FLATLIFE, 2021; NASA, 2024). Shepard permaneceu em órbita por cerca de 15 minutos, mas a sua missão se provou um sucesso e pode mostrar ao povo americano os rápidos avanços do programa espacial do país. Mesmo assim, os Estados Unidos novamente haviam perdido a corrida para lançar o primeiro homem no espaço, com o cosmonauta Yuri Gagarin tendo conseguido tal feito 25 dias antes dos americanos.
Foi somente em julho de 1969 que os Estados Unidos conseguiram a sua primeira grande vitória contra os soviéticos na Corrida Espacial, na qual os astronautas americanos Neil Armstrong e Edwin “Buzz” Aldrin se tornaram as primeiras pessoas a andar no solo da Lua. A missão de Armstrong e Aldrin, que ainda contavam com a companhia do também astronauta Michael Collins, foi a chamada Apollo 11, que fazia parte do grande Projeto Apollo da NASA, criada em 1961 com o objetivo de fazer os Estados Unidos serem o primeiro país a botar um homem na Lua. O sucesso do Apollo foi assistido ao vivo por cerca de 600 milhões de pessoas no mundo inteiro, marcando esse como talvez o evento mais histórico da Corrida Espacial (FLATLIFE, 2021). A importância cultural do evento foi imensa, pois recuperava o orgulho americano que havia sido perdido alguns anos antes com as vitórias soviéticas e provava a superioridade do programa espacial americano.
Muitas décadas depois, o sucesso da Apollo 11 ainda é motivo de muita celebração e orgulho para o povo americano. De acordo com uma pesquisa feita pela rede de televisão CBS News (CBS, 2019), oito em cada dez americanos consideram a missão da NASA como uma fonte de orgulho, com cerca de 45% dos entrevistados também afirmando que nenhum evento desde então trouxe o mesmo nível de orgulho para o país, apesar de que 82% afirmarem que os Estados Unidos podem novamente atingir outro grande feito como o pouso na Lua no futuro.
Em síntese, como mencionado no parágrafo introdutório, combinando com o que foi desenvolvido ao longo do texto, é possível começar a pensar em uma nova corrida espacial, dessa vez entre os Estados Unidos e a China. Dentro de um contexto de brigas comerciais e uma possível “Segunda Guerra Fria”, a disputa pela supremacia tecnológica espacial é mais um dos campos em que as duas superpotências do século XXI disputarão pela vitória sobre a outra. Os investimentos em pesquisa e desenvolvimento de tecnologias de exploração espacial, além da formação de profissionais em universidades e centros de pesquisa serão vitais para o sucesso de ambos os países. Os Estados Unidos, com a sua grande concentração de renomadas universidades somados a sua capacidade de atrair imigrantes possui uma vantagem em relação a China, que possui uma taxa negativa de imigração. Pequim, porém, possui um maior potencial de crescimento econômico, e seu sistema político mais estável para resistir a crises do que o americano, que em 2024 passou por mais uma turbulenta eleição.
Além disso, outro fator diferenciador na atual corrida espacial é a participação do setor privado, com destaque para a empresa SpaceX, propriedade do bilionário Elon Musk, que possui sua própria linha de foguetes e projetos de exploração espacial, como o desenvolvimento de foguetes reutilizáveis, como o Falcon 9, e o sistema de transporte interestelar Starship. Uma colaboração entre a NASA e a SpaceX permitiria uma redução de custos e a maximização da eficiência na exploração espacial, peça-chave para uma vitória na nova corrida espacial. Por outro lado, a China também possui as suas próprias empresas privadas de exploração espacial, a exemplo da i-Space e da LandSpace, duas companhias que também possuem linhas próprias de foguetes, apesar de não possuírem o mesmo sucesso e notoriedade da americana SpaceX.
Pensando em um futuro hipotético, a “nova corrida espacial” entre Estados Unidos e China pode ser marcada por desafios muito mais complexos e multifacetados do que a antiga rivalidade dos tempos da Guerra Fria. Questões de governança espacial, securitização e regulamentações de atividades como a exploração e colonização de outros planetas e asteroides exigiriam criação de uma organização internacional especializada nesses assuntos, que deverá ter o trabalho de criar um consenso entre diferentes partes em um possível conflito espacial. Contudo, como demonstra a história da recepção americana ao lançamento do Sputnik, a corrida espacial pode transbordar de sua dimensão científica e securitária para afetar sentimentos nacionalistas e a percepção interna sobre o sucesso de um país. Neste contexto, a colaboração internacional pode ser um desafio.
Referências:
KILLIAN, J. R. Sputnik Fever. 1977, Massachusetts Institute of Technology, DOI: https://doi.org/10.1002/j.2326-1951.1977.tb01569.x
PAYNE, Rodger A. 1994. Public Opinion and Foreign Threats: Eisenhower’s Response to Sputnik. Armed Forces & Society, Vol 21, Nº 1, Fall 1994, pp 89-112
LULE, Jack. 1991. Roots of the Space Race: Sputnik and the language of U.S. News in 1957. Vol. 68, No. 1/2 (Spring/Summer 1991)
GUTHRIE, Benjamin J. e ROBERTS, Ralph R., 1959. Statistics of the Congressional Election of November 4, 1958
NASA, Project Mercury, Disponível em: https://www.nasa.gov/project-mercury/, Acesso em: 27 out 2024
FLATLIFE, How America Won the Space Race to the Moon | Evolution of NASA [Documentary], [S. l.: s. n.], 30 out 2021. 1 vídeo (39 min 51 s). Publicado pelo canal Flatlife. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=qb2hnx5fmC0&ab_channel=Flatlife Acesso em: 26 out 2024
CBS, Moon landing is still a source of pride – CBS News poll – Disponível em: https://www.cbsnews.com/news/moon-landing-is-still-a-source-of-pride-cbs-news-poll/ Acesso em: 27 out 2024
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