Acaba de ser finalizada a primeira visita oficial ao Brasil de Emmanuel Macron, presidente em exercício em seu segundo mandato pelo partido de centro-direita francês Renaissance. Embora recente, já é possível afirmar que a visita representa um marco para as relações bilaterais Brasil-França. Historicamente, a França tem se mantido enquanto um dos mais importantes parceiros entre os países desenvolvidos para o Brasil. Apesar da tradicional amizade que marca as relações entre os dois países, as relações bilaterais começaram a se aprofundar sobretudo no momento pós-guerra Fria, quando a liberalização e a estabilidade econômica passaram a incentivar os investidores franceses.
Antes disso, durante o regime militar brasileiro, as relações entre a França e o Brasil avançaram timidamente, apesar dos esforços dos chefes de Estado. É sintomático que na ocasião da visita do general Geisel à Paris em 1976, o Brasil recebeu propostas de financiamentos generosas. Entretanto, o setor econômico francês pouco aproveitou a abertura oferecida pelo Brasil e a França caiu para o oitavo lugar entre os investidores estrangeiros no Brasil no período em questão (LESSA, 2013, p.157). É importante destacar que naquele momento a imagem do Brasil no exterior era desgastada pelo autoritarismo dos governos militares, sobretudo na França, um dos países que mais acolheu refugiados brasileiros que procuravam denunciar os crimes da ditadura, inclusive durante a visita de Geisel (MARQUES, 2011).
Porém, o cenário mudou com o processo de consolidação democrática no Brasil. A mudança política veio acompanhada de importantes iniciativas para a atração de investimentos franceses, como a “Exposição França 2000”, que marca o início do aprofundamento das relações econômicas entre os dois países (LESSA, 2013, p.162). Com efeito, desde então, a presença da França no Brasil aumentou consideravelmente em diversos setores da economia, tais como hotelaria e energia. Convém ainda destacar a cooperação no setor de defesa, que passou a se fortalecer em meados dos anos 2000. Atualmente, o país ocupa a terceira posição entre os maiores investidores no Brasil a próxima potência tradicional “mais próxima do Brasil”, segundo o próprio presidente Lula, em declaração feita no último 28 de março (PALÁCIO DO PLANALTO, 2024).
Todavia, o fator “democracia” se mantém fundamental para a compreensão das relações entre os dois países e a simbologia em torno da visita de Emmanuel Macron entre 23 e 26 de março de 2024. A visita do presidente francês marca a retomada de um bom diálogo entre o Brasil e a França, que ficou prejudicado durante o governo Bolsonaro. É válido lembrar que as tensões entre os dois países ficaram evidentes após as ofensas proferidas por Bolsonaro contra a primeira-dama francesa, Brigitte Macron, mas também eram perceptíveis em desacordos em outros temas, tais como a importância atribuída à processos de integração e as políticas de proteção ao meio ambiente. A condecoração de Lula como cidadão honorário de Paris em 2020, logo após a sua libertação, bem como a sua recepção com honrarias de chefe de Estado por Macron em 2022, evidenciaram a oposição de uma parcela significativa dos franceses à extrema direita global integrada por Bolsonaro.
A visita, portanto, marca uma reaproximação. Todavia, ela foi considerada tardia por alguns especialistas (PRAZERES, 2024). Sobre tal questão, é válido refletir sobre a importância da vinda ao Brasil neste exato momento para o próprio Macron. Segundo Guilherme Casarões, em estudo sobre viagens internacionais durante as eleições presidenciais brasileiras de 1989, as viagens internacionais podem significar uma busca por aprovação e legitimidade no plano internacional diante da ausência de recursos para alcançá-las no plano interno (CASARÕES, 2022). Embora a França não viva um momento de eleições nacionais, atualmente, o país, que busca manter uma posição de protagonismo na Europa, se prepara para as eleições da União Europeia que ocorrerão em junho de 2024. Enquanto isso, no plano interno francês, o presidente enfrenta nos últimos meses forte oposição e duras críticas pela aprovação de medidas liberais. Entre elas, se destaca a crise em virtude da aprovação da reforma da previdência, que deu origem à um grande ciclo de protestos em 2023 e resultou no afastamento da sua primeira-ministra, Elisabeth Borne. Mais recentemente, é notável a deterioração da sua imagem entre o eleitorado francês por amparar a redução dos restos do Estado do bem-estar social no país ao apoiar a redução drástica do seguro-desemprego, entre outras medidas. No plano europeu, ele também tem tido a imagem desgastada em virtude das declarações sobre a possibilidade de envio de tropas à Ucrânia, em desalinhamento da posição do restante da Europa. Como resultado, Macron viu a sua imagem viver um grave desgaste (DUPONT, 2024).
Diante desse cenário, Macron parece ter escolhido o Brasil de Lula a dedo: além de Lula ser um líder com boa popularidade no nível internacional, o Brasil é um dos países protagonistas no debate sobre a proteção do meio ambiente, por contar com a maior parte da floresta amazônica em seu território nacional e ser sede da próxima Conferência do Clima da ONU, a COP 30, que ocorrerá em Belém do Pará, em 2025. Tal tema é especialmente sensível para a população francesa: segundo uma pesquisa efetivada pela Agência de Meio Ambiente e controle de energia (ADEME – Agence de l’environnement et de la maîtrise de l’énergie) e pelo centro de pesquisa pelo Estudo e observação das condições de vida (Crédoc) o tema é a segunda preocupação dos franceses, perdendo apenas para o debate sobre segurança (L’environnement…, 2023). Inclusive, na pesquisa em andamento que incentivou o presente texto, desenvolvida por pesquisadoras do Observatório de ação Coletiva transnacional e política comparada (OAPoc), o meio ambiente foi o enquadramento mais mobilizado pelo mais renomado periódico francês, o Le Monde, nas matérias de cobertura das eleições brasileiras de 2022 (DAWAS, MARQUES, 2023).
Se o timming da visita ao Brasil foi pertinente para Macron, para o Brasil, pareceu representar uma oportunidade a não ser perdida. É importante destacar que a extrema direita tem crescido de forma clara a cada processo eleitoral na França. Esse cenário indica que a partir das eleições de 2027 as forças progressistas no Brasil, caso ainda estejam à frente do executivo, podem ter maiores dificuldades em fechar novos alinhamentos com a França. Assim, os entraves representados pela França em um assunto de interesse do Brasil, o acordo MERCOSUL-União Europeia, pode parecer um problema menor, justificando os esforços do Brasil para que a questão não prejudicasse os diálogos entre os dois países durante a estadia de Macron no Brasil.
Diante desse quadro, era esperado o engajamento diplomático de ambas as partes em favor do sucesso missão de Macron no tour por 4 cidades brasileiras. Efetivamente, foi um sucesso: os dois países adotaram mais de 20 atos, além de terem adotado o Chamado Brasil-França à ambição climática e o Plano de ação de sobre bioeconomia e a proteção das florestas tropicais. A cooperação científica também foi aprofundada. Destaca-se ainda o aprofundamento da cooperação dos dois no campo militar em um cenário internacional marcado por diversos conflitos com o lançamento do submarino nuclear fabricado no Brasil com tecnologia francesa, resultado do Programa de Desenvolvimento de Submarinos (Prosub), uma parceria entre o Brasil e França firmada em 2008.
Portanto, o caso da missão de Macron no Brasil indica que cada vez mais os líderes mundiais buscam apoio e legitimidade no plano internacional, em tempos de campanha ou não. No momento, o francês definitivamente precisa do apoio internacional do Sul, por isso, cada foto com Lula se tornou preciosa. Isso explica a apresentação espirituosa de uma das montagens na conta instagram do presidente francês como “prova” de um casamento por “amor” entre os dois países, em resposta à enxurrada de memes que ridicularizam as fotos dos dois presidentes aos compará-las com um ensaio de “pré-wedding”. Bem, como colocou Cynthia Enloe em seu clássico “Bananas, beaches and bases”: “Marriage is political. Marriage is international.” (ENLOE, 2014, p.10). Não há por que nos iludirmos quando falamos do “casamento” entre nações.
Referências:
CASARÕES, Guilherme. Todo o mundo é um palco: viagens de campanha nas eleições presidenciais brasileiras de 1989. Locus: Revista de História, Juiz de Fora, v. 28, n. 1, 2022.
DAWAS, Mariana; MARQUES, Teresa. A política externa do governo Bolsonaro e a imagem do Brasil em tempos de campanha: a cobertura das eleições 2022 pelo Le Monde. 9º. Encontro Nacional da Associação Brasileia de Relações Internacionais (ABRI). Banner – Iniciação Científica (Projeto: Relações Internacionais e ativismo transnacional: um estudo das redes de ativismo pela democracia brasileira na França”, com financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Rio Grande do Sul – FAPERGS). Belo Horizonte-MG, 25 a 27 de julho de 2023.
DUPONT, Stéphane. SONDAGE EXCLUSIF – Emmanuel Macron entame l’année 2024 avec une maigre cote de confiance. Disponível em: https://www.lesechos.fr/politique-societe/emmanuel-macron-president/sondage-exclusif-emmanuel-macron-entame-lannee-2024-avec-une-maigre-cote-de-confiance-2044406
ENLOE, Cynthia. Bananas, Beaches and Bases: Making feminista sense of international politics. University of California Press, 2014.
L’environnement, un sujet de préoccupation pour de plus en plus de Français. 20 de julho de 2023. Vie publique. Disponível em: https://www.vie-publique.fr/en-bref/290379-lenvironnement-un-sujet-qui-preoccupe-de-plus-en-plus-les-francais
LESSA, Antônio Carlos. Uma parceria em construção: as relações entre França e Brasil (1945-2000). Belo Horizonte: Fino Traço, 2013.
MARQUES, Teresa Cristina Schneider. Militância política e solidariedades transnacionais: A trajetória política dos exilados brasileiros no Chile e na França (1968-1979). Tese de doutorado. Programa de Pós-graduação em Ciência Política. Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 2011.
PALÁCIO DO PLANALTO. Declaração à imprensa por ocasião visita do presidente da França, Emmanuel Macron. 28 de março de 2024. Disponível em:https://www.gov.br/planalto/pt-br/acompanhe-o-planalto/discursos-e-pronunciamentos/2024/declaracao-a-imprensa-por-ocasiao-visita-do-presidente-da-franca-emmanuel-macron
PRAZERES, Leandro. Lula e Macron: o que une e o que afasta o presidente francês do brasileiro. BBC. 26 de março de 2024. Disponível em: https://www.msn.com/pt-br/noticias/brasil/lula-e-macron-o-que-une-e-o-que-afasta-o-presidente-franc%C3%AAs-do-brasileiro/ar-BB1kzBch

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