Autoria: Brendda Herok Lenuzza; Arthur Ruschel Langhanz; Augusto Neftali Corte de Oliveira.
Resumo: O texto analisa a repercussão internacional do primeiro mês do terceiro governo Lula a partir de 9.643 postagens em língua inglesa publicadas no Facebook. A análise identifica como temas centrais os ataques antidemocráticos de 8 de janeiro, a posse presidencial e a crise humanitária Yanomami, destacando a associação internacional entre democracia, direitos humanos e proteção da Amazônia.
Palavras-chave: governo Lula; política externa brasileira; redes sociais; mineração de texto; 8 de janeiro; democracia; Amazônia.
Abstract: The report analyzes the international repercussion of the first month of Lula’s third administration through 9,643 English-language Facebook posts. The analysis identifies the January 8 anti-democratic attacks, the presidential inauguration, and the Yanomami humanitarian crisis as the main topics, highlighting the international association between democracy, human rights, and the protection of the Amazon.
Keywords: Lula administration; Brazilian foreign policy; social media; text mining; January 8; democracy; Amazon.
Relatório Analítico de Janeiro de 2023
A presente análise busca compreender a repercussão internacional do terceiro governo de Luiz Inácio Lula da Silva por meio da mineração de textos publicados em redes sociais digitais, especialmente no Facebook, utilizando dados obtidos por meio da plataforma CrowdTangle. Foram selecionadas postagens publicadas entre 1º de janeiro, à 0h, e 31 de janeiro de 2023, às 23h59. O corpus resultante é composto por 9.643 postagens em língua inglesa.
Posteriormente, as postagens foram classificadas de acordo com o tipo de página responsável pela publicação. Foram estabelecidas as seguintes categorias, denominadas grupos: media, government, politics, entertainment, business, opinion, education and scientific e other.
O emprego de mineração de texto para analisar conteúdo político em redes sociais permite identificar padrões discursivos em grandes corpora e comparar o comportamento de diferentes grupos de usuários. Em estudo posterior, Oliveira (2024) emprega mineração de texto e redes semânticas em 29.124 postagens do Facebook para investigar discursos políticos relacionados ao sistema eleitoral brasileiro, demonstrando a utilidade desses métodos para o estudo de formas de mobilização política que ocorrem fora dos canais institucionais tradicionais.
Essa dimensão é especialmente relevante no contexto brasileiro recente. Estudos anteriores já identificavam a circulação, nas redes sociais, de conteúdos destinados a produzir desconfiança no sistema eleitoral brasileiro (Ruediger; Grassi, 2020). A literatura também chama atenção para a relação entre redes sociais e mobilização populista (Gerbaudo, 2018) e para os efeitos de bolhas informacionais, câmaras de eco e desinformação sobre a avaliação crítica de informações políticas pelos usuários (Rhodes, 2022). Essas três referências são também mobilizadas por Oliveira (2024) ao discutir os desafios que o ambiente digital apresenta à democracia brasileira.
Figura 1. Análise de clusters da repercussão internacional do governo Lula em janeiro de 2023.
Fonte: elaboração dos autores com dados do CrowdTangle.
Identificação dos clusters
A análise permitiu identificar diferentes conjuntos de termos associados aos acontecimentos políticos e sociais que marcaram o primeiro mês do novo governo.
Cluster roxo, n. 3: relacionado à Amazônia e à situação do povo Yanomami.
Cluster azul-claro, n. 1: relacionado à derrota de Jair Bolsonaro nas eleições presidenciais e aos ataques de 8 de janeiro, com termos como defeat, supporter e storm.
Cluster amarelo, n. 2: reúne referências tanto aos ataques às instituições brasileiras — attack, democracy, institution — quanto à posse de Lula no início do mês — president, government, country.
Cluster verde, n. 11: caracterizado por termos como attempt e coup, relacionados à interpretação dos ataques de 8 de janeiro como uma tentativa de ruptura da ordem democrática.
Cluster vermelho, n. 4: associado aos acontecimentos anteriores, com destaque para termos como police e arrest, referentes à resposta policial e às prisões realizadas após os ataques.
Cluster azul-escuro, n. 5: relacionado à invasão do Capitólio dos Estados Unidos em 6 de janeiro de 2021, apresentando termos como Capitol, U.S. e Trump.
O mês de janeiro de 2023 foi marcado pela posse de Lula para seu terceiro mandato presidencial. Entretanto, dois acontecimentos dominaram de maneira particularmente intensa a repercussão internacional: a posse do novo presidente e os ataques contra as sedes dos três Poderes da República, ocorridos em Brasília em 8 de janeiro de 2023.
Os ataques ao Congresso Nacional, ao Supremo Tribunal Federal e ao Palácio do Planalto receberam forte atenção internacional e foram amplamente enquadrados como uma ameaça às instituições democráticas brasileiras. As postagens frequentemente associaram os acontecimentos aos apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro e à contestação do resultado do segundo turno das eleições presidenciais de 2022.
Esse resultado adquire significado adicional quando considerado à luz de pesquisas sobre o discurso de contestação eleitoral no Brasil. Oliveira (2024) identifica, em período anterior às eleições de 2022, um discurso digital que não antagonizava apenas adversários políticos, mas também órgãos e processos responsáveis pelo funcionamento da democracia brasileira. O estudo mostra que o STF, o TSE e o próprio sistema eleitoral passaram a ocupar posição central nesse discurso anti-institucional. Ruediger e Grassi (2020) também haviam identificado esforços de produção de desconfiança sobre o sistema eleitoral nas redes sociais.
Outro elemento recorrente na repercussão internacional foi a comparação entre os acontecimentos de Brasília e a invasão do Capitólio dos Estados Unidos em 6 de janeiro de 2021. Essa associação aparece de maneira particularmente clara no cluster azul-escuro, marcado pelos termos U.S., Capitol e Trump. A comparação sugere que parte importante da cobertura internacional interpretou o 8 de janeiro brasileiro dentro de um quadro mais amplo de contestação populista dos resultados eleitorais e das instituições representativas.
A literatura sobre populismo digital ajuda a contextualizar essa dinâmica. Gerbaudo (2018) chama atenção para a afinidade entre determinadas formas de mobilização populista e as características comunicacionais das redes sociais digitais, enquanto Rhodes (2022) demonstra como câmaras de eco, bolhas informacionais e outros mecanismos das plataformas podem reduzir a capacidade crítica dos usuários diante da desinformação política.
Figura 2. Correspondência entre grupos de páginas e termos presentes nas postagens.
Fonte: elaboração dos autores com dados do CrowdTangle.
O grupo media aparece próximo de termos como rioter, storm, protester e Congress, indicando a ampla cobertura jornalística internacional dos ataques realizados por apoiadores de Jair Bolsonaro em Brasília.
O grupo politics apresenta maior proximidade com palavras como minister, democracy, federal e attack. Essa associação sugere uma abordagem mais diretamente relacionada às instituições do Estado e ao significado político dos ataques.
Os grupos business e education and scientific aparecem graficamente próximos de politics, embora apresentem associações específicas com outros temas. O grupo other não apresentou proximidade particularmente forte com um conjunto específico de termos. No grupo government, as associações mostraram-se menos concentradas.
Finalmente, opinion e entertainment aproximaram-se de parte do vocabulário observado no grupo media, mas também de termos como Lula, Brazil, Brazilian, security, Bolsonaro e far-right. Esse resultado indica que parte expressiva do debate internacional sobre esses temas ocorreu também em páginas de opinião, revistas e entretenimento, e não apenas em veículos jornalísticos tradicionais.
Análise tópica
Foram identificados sete tópicos no conjunto das 9.643 postagens.
| Tópico | Principais Termos |
| #1 | supporter, storm, Congress, Bolsonaro, supreme_court, presidential_palace, capital, building, defeat, leftist |
| #2 | attack, election, democracy, support, leader, U.S., condemn, Trump, Biden, attempt |
| #3 | Brasilia, government, building, riot, security, police, federal, military, capital, arrest |
| #4 | President, Bolsonaro, brazilian, inauguration, Florida, office, return, visa, home, presidential |
| #5 | BRAZIL, government, LULA, people, indigenous, Amazon, Minister, read, Yanomami, deforestation |
| #6 | say, country, world, state, India, international, include, Argentina, work, city |
| #7 | LULA, BRAZIL, President, Pele, swear, van, BRASIL, term, die, football |
Os termos distintivos dos sete tópicos mostram que os ataques de 8 de janeiro ocuparam uma parcela muito significativa da repercussão internacional, mas não esgotaram a cobertura do primeiro mês do governo Lula.
Tópico #1 — ataques de 8 de janeiro. O primeiro tópico retrata diretamente a invasão das sedes dos Poderes por apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro. Termos como Supreme Court, presidential palace, defeat e supporter aparecem associados a Bolsonaro.
Tópico #2 — democracia e comparação com os Estados Unidos. Relacionado ao primeiro tópico, incorpora a comparação com a invasão do Capitólio norte-americano em 2021. As categorias government e politics apresentam associação particularmente forte com a dimensão democrática dos acontecimentos e com as reações internacionais.
Tópico #3 — segurança, polícia e prisões. Complementa os dois primeiros, mas apresenta maior concentração em termos relacionados às forças policiais e militares, à segurança das instituições e às prisões realizadas após os ataques.
Tópico #4 — Bolsonaro e a Flórida. Relaciona-se à derrota eleitoral de Jair Bolsonaro, à sua ida para a Flórida pouco antes do encerramento de seu mandato e à discussão internacional sobre sua permanência nos Estados Unidos.
Tópico #5 — Yanomami, Amazônia e desmatamento. O quinto tópico reúne termos relacionados à crise humanitária vivenciada pelo povo Yanomami, ao garimpo ilegal, à Amazônia e ao desmatamento.
Tópico #6 — cenário internacional. Apresenta vocabulário mais geral, com termos como India, Argentina, world, state e country. Em razão da baixa especificidade semântica, sua interpretação é menos definida.
Tópico #7 — Brasil e a morte de Pelé. Reúne referências gerais ao Brasil e apresenta forte associação com a morte de Pelé, acontecimento de grande repercussão internacional na passagem de dezembro de 2022 para janeiro de 2023.
Figura 3. Associação entre os grupos de páginas e os tópicos identificados.
Fonte: elaboração dos autores com dados do CrowdTangle.
Principais associações entre grupos e tópicos
No grupo media, os ataques de 8 de janeiro foram claramente predominantes. Páginas classificadas como mídia internacional apresentaram forte associação com o tópico #1, diretamente relacionado à invasão das sedes dos Poderes.
No grupo politics, destacou-se o tópico #2, que relaciona os ataques de Brasília à invasão do Capitólio dos Estados Unidos, à ameaça à democracia e às manifestações do governo norte-americano, especialmente do presidente Joe Biden.
O grupo business apresentou associação tanto com questões de segurança relacionadas aos ataques quanto com o tópico #5, dedicado à situação do povo Yanomami, à Amazônia e ao desmatamento.
Nas páginas de entertainment, a distribuição temática mostrou-se mais difusa.
O grupo education and scientific apresentou associação particularmente clara com o tópico #5, indicando que páginas acadêmicas e educacionais deram maior atenção à crise Yanomami e às questões relacionadas à Amazônia e ao desmatamento.
No grupo government, assim como em politics, destacou-se a interpretação dos acontecimentos de 8 de janeiro como um ataque à democracia.
Por fim, o grupo opinion apresentou distribuição mais heterogênea, com alguma concentração no tópico #7, que combina referências gerais ao Brasil com a repercussão da morte de Pelé.
Considerações finais
Em síntese, os temas de maior repercussão internacional no Facebook durante janeiro de 2023 foram a posse do presidente Lula e, sobretudo, os ataques antidemocráticos de 8 de janeiro. A cobertura dos ataques foi especialmente intensa entre usuários classificados no grupo media e colocou em primeiro plano questões relacionadas à segurança das instituições e à preservação da democracia brasileira.
A associação frequente entre os ataques de Brasília e a invasão do Capitólio dos Estados Unidos em 6 de janeiro de 2021 demonstra que os acontecimentos brasileiros foram interpretados internacionalmente em conexão com um fenômeno político mais amplo: a contestação de resultados eleitorais e de instituições democráticas por movimentos ligados a lideranças populistas.
Nesse sentido, os resultados dialogam com uma agenda de pesquisa que já havia identificado, antes de 2023, a presença nas redes sociais brasileiras de discursos de desconfiança eleitoral e antagonismo contra instituições responsáveis pelo processo democrático (Ruediger; Grassi, 2020; Oliveira, 2024). O estudo de Oliveira (2024), em particular, conclui que o discurso favorável ao voto impresso adquiriu caráter antissistêmico justamente por dirigir seu antagonismo não apenas a adversários políticos, mas aos processos e órgãos da democracia representativa.
A crise humanitária na Terra Indígena Yanomami também adquiriu importância durante o mês, embora com uma distribuição distinta entre os grupos de usuários. O tema apresentou maior associação com páginas classificadas como education and scientific e foi conectado, no debate internacional, às questões do desmatamento e da proteção da Amazônia.
Os dois principais acontecimentos que marcaram internacionalmente o primeiro mês do terceiro governo Lula — os ataques antidemocráticos e a crise humanitária Yanomami — foram, portanto, apresentados predominantemente como desafios a serem enfrentados pelo novo governo, e não como críticas diretamente dirigidas a ele.
Observa-se, ao contrário, uma importante presença de manifestações de apoio ao governo Lula diante de problemas percebidos como heranças ou desdobramentos do governo anterior. Essa configuração poderia favorecer, naquele momento inicial, a reinserção internacional do Brasil, sobretudo pela convergência entre três pautas de grande visibilidade internacional: defesa da democracia, direitos humanos e proteção ambiental, especialmente da Amazônia.
Referências
GERBAUDO, Paolo. Social media and populism: an elective affinity? Media, Culture & Society, v. 40, n. 5, p. 745–753, 2018. DOI: 10.1177/0163443718772192.
OLIVEIRA, Augusto Neftali Corte de. Democracia, populismo e discurso do voto impresso: análise de conteúdo no Facebook por mineração de texto e redes semânticas. Dados – Revista de Ciências Sociais, v. 67, n. 4, 2024. DOI: 10.1590/dados.2024.67.4.330.
RHODES, Samuel. Filter bubbles, echo chambers, and fake news: how social media conditions individuals to be less critical of political misinformation. Political Communication, v. 39, n. 1, p. 1–22, 2022. DOI: 10.1080/10584609.2021.1910887.
RUEDIGER, Marco Aurelio; GRASSI, Amaro (coord.). Desinformação on-line e processos políticos: a circulação de links sobre desconfiança no sistema eleitoral brasileiro no Facebook e no YouTube (2014–2020). Rio de Janeiro: FGV DAPP, 2020.
Nota editorial: Referências bibliográficas acrescentadas em 2026 como parte da padronização editorial do Caderno de Conjuntura OAPOC. A referência a Oliveira (2024), publicada após a versão original desta análise, foi incorporada por sua relação direta com a metodologia empregada e com o debate sobre redes sociais, contestação eleitoral e ameaças às instituições democráticas.