Autoria: Augusto Neftali Corte de Oliveira; Teresa Cristina Schneider Marques; Felipe Rocha de Carvalho.
Resumo: O texto apresenta resultados de pesquisa sobre organizações partidárias transnacionais na América Latina entre 2000 e 2015. A análise mostra que o Foro de São Paulo integra um fenômeno mais amplo de articulação internacional dos partidos e que essas redes apresentam diferenças ideológicas coerentes entre as candidaturas presidenciais a elas vinculadas.
Palavras-chave: Foro de São Paulo; partidos políticos; redes partidárias transnacionais; América Latina; ideologia; eleições presidenciais.
Abstract: The essay presents research findings on transnational party organizations in Latin America between 2000 and 2015. The analysis shows that the São Paulo Forum is part of a broader phenomenon of international party cooperation and that these networks display coherent ideological differences among their affiliated presidential candidacies.
Keywords: São Paulo Forum; political parties; transnational party networks; Latin America; ideology; presidential elections.
Há alguns anos, uma rede partidária transnacional, o Foro de São Paulo, recebe considerável atenção pública nas redes sociais brasileiras. No entanto, o debate sobre o Foro de São Paulo é frequentemente marcado por teorias da conspiração e fake news propagadas com intenções políticas e eleitorais (Messenberg, 2017).
No artigo “Redes partidárias transnacionais” na América Latina? Coerência ideológica entre partidos e candidaturas presidenciais (2000-2015) (Oliveira; Marques; Carvalho, 2022), publicado em dezembro de 2022 na revista Mural Internacional, procuramos compreender melhor a atuação internacional dos partidos políticos latino-americanos. Afinal, o que são organizações como o Foro de São Paulo?
Com esse objetivo, analisamos as candidaturas presidenciais de 16 países da América Latina durante 15 anos, entre 2000 e 2015, procurando identificar se os partidos responsáveis por essas candidaturas estavam vinculados a alguma organização partidária transnacional.
Além do Foro de São Paulo, encontramos candidaturas e partidos vinculados à Internacional Socialista, à Organização Democrata Cristã da América, à União de Partidos Latino-Americanos e à Internacional Liberal. Juntas, essas organizações abrangem todo o espectro ideológico, da esquerda à direita.
De um total de 155 candidaturas presidenciais analisadas, 78% foram apresentadas por partidos políticos vinculados a uma dessas organizações (Oliveira; Marques; Carvalho, 2022). Portanto, o Foro de São Paulo não é uma “ave rara” no continente: constitui uma entre diversas formas institucionalizadas de articulação internacional entre partidos políticos.
De acordo com as próprias organizações, um dos objetivos da articulação internacional de partidos políticos é o compartilhamento de interpretações sobre problemas comuns aos diferentes países, assim como de ideias e propostas de políticas públicas capazes de enfrentá-los.
Refletindo sobre as redes transnacionais de partidos na Europa, Wolkenstein (2020) sustenta que essas redes podem preparar as organizações partidárias para atuar sobre problemas compartilhados por diferentes países e para desenvolver projetos políticos que ultrapassam as fronteiras nacionais.
Nossa investigação prosseguiu procurando identificar se as candidaturas presidenciais apresentadas por partidos vinculados às diferentes organizações partidárias transnacionais possuíam, em seus programas de governo, diferenças políticas ou ideológicas relevantes.
A partir de um índice de ideologia programática aplicado aos programas de governo, constatamos que essas diferenças podem efetivamente ser observadas (Oliveira; Marques; Carvalho, 2022).

Figura 1. Posição ideológica das candidaturas presidenciais segundo sua vinculação a organizações partidárias transnacionais.
Fonte: Oliveira, Marques e Carvalho (2022).
De maneira coerente com as expectativas, o Foro de São Paulo concentra um número elevado de candidaturas presidenciais programaticamente situadas à esquerda do conjunto, embora também apresente candidaturas de centro e algumas de direita.
A Internacional Socialista reúne principalmente candidaturas de centro. Já a Organização Democrata Cristã da América e a União de Partidos Latino-Americanos estão claramente associadas a candidaturas de direita, sendo essa relação mais acentuada no caso da segunda organização.
Não foi possível incluir a Internacional Liberal nessa etapa da análise em razão do número reduzido de candidaturas presidenciais vinculadas à organização.
Os resultados permitem observar, portanto, que as candidaturas presidenciais dos 16 países latino-americanos pesquisados se distribuem entre as organizações transnacionais de partidos com considerável coerência programática e ideológica (Oliveira; Marques; Carvalho, 2022). A filiação internacional dos partidos não parece, assim, constituir apenas uma associação formal, mas também pode funcionar como um indicador das orientações programáticas compartilhadas pelas organizações que integram essas redes. O artigo original identifica precisamente essa coerência ideológica como uma de suas principais contribuições.
A pesquisa “Redes partidárias transnacionais” na América Latina? apresenta evidências de que os partidos políticos latino-americanos do início do século XXI atuaram em redes, organizando-se internacionalmente com relativa coerência ideológica e compartilhando interpretações sobre problemas políticos e sociais.
Pesquisas adicionais são necessárias para compreender em que medida os partidos da América Latina efetivamente atuam em rede e por quais mecanismos essas conexões transnacionais influenciam seus programas, estratégias eleitorais, políticas públicas e posições de política externa.
Além das organizações partidárias, outras formas de ação política transnacional ganharam relevância na região. Araldi e Svartman (2019), por exemplo, demonstram a importância das redes internacionais de think tanks na difusão de ideias e agendas de liberalização econômica.
Dessa forma, o Foro de São Paulo deve ser compreendido como um exemplo de um fenômeno político transnacional mais amplo e bastante frequente na América Latina, sendo específico o seu conteúdo político e ideológico, e não a existência de vínculos internacionais entre organizações partidárias.
Referências
ARALDI, Lucas; SVARTMAN, Eduardo Munhoz. Rede Atlas, think tanks e a construção da liberalização econômica no Brasil: uma análise do Instituto Millenium e do Instituto Ludwig von Mises Brasil. Conexão – Comunicação e Cultura, v. 18, n. 35, p. 317–339, 2019.
MESSENBERG, Débora. A direita que saiu do armário: a cosmovisão dos formadores de opinião dos manifestantes de direita brasileiros. Sociedade e Estado, v. 32, n. 3, p. 621–648, 2017.
OLIVEIRA, Augusto Neftali Corte de; MARQUES, Teresa Cristina Schneider; CARVALHO, Felipe Rocha de. “Redes partidárias transnacionais” na América Latina? Coerência ideológica entre partidos e candidaturas presidenciais (2000-2015). Mural Internacional, v. 13, e66621, 2022. DOI: 10.12957/rmi.2022.66621.
WOLKENSTEIN, Fabio. Transnational partisan networks and constituent power in the EU. Constellations, v. 27, n. 1, p. 127–142, 2020.
Nota editorial: Referências bibliográficas organizadas em 2026 como parte da padronização editorial do Caderno de Conjuntura OAPOC.