O Foro de São Paulo e as Redes Partidárias Transnacionais na América Latina

Augusto Neftali Corte de Oliveira, Teresa Cristina Schneider Marques, Felipe Rocha de Carvalho.

Há alguns anos uma rede partidária transnacional, o Foro de São Paulo, recebe atenção pública nas redes sociais brasileiras. No entanto, o debate sobre o Foro de São Paulo é marcado por teorias da conspiração e fake news propagadas com intenções políticas e eleitorais (Messenberg, 2017). No artigo “’Redes Partidárias Transnacionais’ na América Latina?”, publicado em dezembro de 2022 na revista Mural Internacional (UERJ), procuramos compreender melhor a atuação partidária de partidos latino-americanos no ambiente internacional. Afinal, o que são as organizações como o Foro de São Paulo?

Com este objetivo, olhamos para as candidaturas presidenciais de 16 países da América Latina durante 15 anos (2000-2015) e procuramos identificar se os partidos patrocinadores destas candidaturas estavam vinculados à alguma rede partidária como o Foro de São Paulo. Além deste, encontramos candidaturas e partidos vinculados à Internacional Socialista, à Organização Democrata Cristã da América, à União de Partidos Latino-americanos e à Internacional Liberal. Juntas, estas organizações compreendem todo o espectro ideológico, da esquerda à direita. De um total de 155 candidaturas presidenciais analisadas, 78% delas foram apresentadas por partido político com vinculação a uma dessas organizações. Portanto, o Foro de São Paulo não é ave rara no continente.

De acordo com as próprias organizações, um objetivo da congregação em âmbito internacional de partidos políticos é o compartilhamento de interpretações sobre os problemas comuns aos diferentes países e ideias sobre políticas públicas capazes de enfrentar estes problemas. Refletindo sobre as redes transnacionais de partidos na Europa, Wolkestein (2020) corrobora com a noção de que redes transnacionais de partidos políticos preparam as agremiações para atuarem sobre os problemas comuns dos diferentes países e para avançarem em projetos compartilhados para além das fronteiras nacionais.

Nossa investigação prosseguiu procurando identificar se as candidaturas presidenciais apresentadas por partidos vinculados às diferentes organizações partidárias transnacionais possuíam, em seus programas de governo, diferenças políticas ou ideológicas relevantes. A partir de um índice de ideologia programática, constatamos que esta diferença realmente pode ser observada.

De maneira coerente com as expectativas, o Foro de São Paulo concentra um número elevado de candidaturas presidenciais programaticamente à esquerda do conjunto – embora, também, constem candidaturas de centro e algumas de direita. A Internacional Socialista reúne, principalmente, candidaturas de centro. Já a Organização Democrática Cristã da América e a União de Partidos Latino-americanos estão claramente vinculadas às candidaturas de direita, a segunda de forma mais forte do que a primeira. Não foi possível incluir a Internacional Liberal na análise, por conta do número menor de candidaturas presidenciais vinculadas a esta organização. A análise permite observar que as candidaturas presidenciais dos 16 países da América Latina pesquisadas repartem-se, com coerência programática ou ideológica, entre as organizações transnacionais de partidos políticos.

A pesquisa “’Redes Partidárias Transnacionais’ na América Latina?” apresenta evidências de que os partidos políticos na América Latina do início do século XX atuaram em redes, organizando-se em âmbito transnacional com coerência ideológica compartilhamento de visões sistêmicas. Pesquisas adicionais são necessárias para compreendermos em que medida os partidos da América Latina atuam em rede e como essas conexões eventualmente ocorrem. Além disso, como destacam Araldi e Svartman (2019), outras formas de ação política transnacional emergiram, como os think tanks. De qualquer forma, o Foro de São Paulo é apenas um exemplo de um fenômeno político transnacional bastante frequente na América Latina atual, sendo específico apenas seu conteúdo político e ideológico.

Araldi, L.; Svartman, E. M. (2019). ‘Rede atlas, think tanks e a construção da liberalização econômica no Brasil: uma análise do Instituto Millenium e do Instituto Ludwig von Mises Brasil’, Conexão, 18(35), pp. 317-339.

Messenberg, D. (2017). ‘A direita que saiu do armário: a cosmovisão dos formadores de opinião dos manifestantes de direita brasileiros’, Sociedade e Estado, 32(3), pp. 621-648

Oliveira, A. Marques, T. Carvalho, F. (2022). “Redes Partidárias Transnacionais’ na América Latina? Coerência ideológica entre partidos e candidaturas presidenciais (2000-2015)”, Mural Internacional. 13, pp. e66621.

Wolkenstein, F. (2020). ‘Transnational partisan networks and constituent power in the EU’, Constellations. 27(1), pp. 127-142.