Alexsander Dugno Chiodi (Mestrando em Ciência Política – Programa de Pós-Graduação em Ciência Política da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Núcleo de Pesquisa sobre a América Latina, UFRGS)
A propaganda eleitoral para as eleições de 2022 começou oficialmente na terça-feira do dia 16/08/2022. A partir dessa data, estava permitida a divulgação de candidatas e candidatos às Eleições 2022, inclusive na internet. Essa seria a regra. Na vida real, a campanha digital começou antes mesmo que o ano eleitoral – e, passado um mês do segundo turno, parece que ainda não acabaram.
A eleição de 2022 foi singular. Desde que a elegibilidade de Lula (PT) foi declarada em 2021, o que todas as pesquisas de opinião captaram foi a completa cristalização do voto em dois polos: o ex-presidente Lula, e o atual presidente Jair Bolsonaro (PL). Coube a cada campanha escolher qual seria a forma mais eficaz de garantir os votos dos eleitores decididos, atrair os indecisos e neutralizar os votos de seu opositor – e todos sabiam que a batalha mais decisiva seria travada no campo das redes sociais.
ARRANJO DE FORÇAS
REDES SOCIAIS E O ECOSSISTEMA DESINFORMATIVO
Em 2018, a campanha de Bolsonaro soube usar as redes sociais de forma tão eficaz quanto criminosa na corrida pela presidência da República. Desde então, com a caneta presidencial e a imensa estrutura do Estado brasileiro ao seu dispor, o presidente e seus assessores tiveram quatro anos para azeitar um ecossistema desinformativo responsável por fidelizar grande parte do eleitorado em figuras da extrema-direita, descredibilizar os grandes meios de comunicação tradicional e as instituições fundamentais para o funcionamento democrático, enquanto impulsionavam a figura de Bolsonaro como a de um grande estadista, o único Chefe de Estado com coragem para se contrapor a Nova Ordem Mundial e capaz de defender o Brasil da catástrofe iminente – o que pode ser denominado “Pânico Moral”, como a Guerra, o comunismo, a destruição do cristianismo, da família ou do país.
Aliado à estrutura bilionária desse ecossistema desinformativo, o know-how bolsonarista foi reforçado pelo canal revisionista Brasil Paralelo e pela Jovem Pan, que por meio de rádio, canal de televisão e amplo engajamento no YouTube e Facebook se tornou a rede oficial de propaganda favorável ao governo e de ataque à candidatura de Lula. Em agosto de 2022, a máquina de comunicação da extrema-direita parecia imbatível e pronta para solapar o campo progressista como fez durante todo o mandato de Bolsonaro.
CAMPO PROGRESSISTA
Enquanto a campanha de Bolsonaro utilizava da máquina pública para produzir conteúdo enaltecendo o presidente, atacar seus opositores, fidelizar a militância e aumentar a rejeição petista dos indecisos, a campanha de Lula parecia disposta a promover uma campanha similar àquelas de uma (ou talvez duas) décadas atrás. Apesar de contar com a simpatia do eleitorado jovem, o ex-presidente apenas estreou na rede viral TikTok no dia 20/06. Seus “tweets” eram trechos de discursos realizados em palanques. Enquanto Bolsonaro promoveu transmissões ao vivo em seu Instagram e Facebook em quase todas as quintas-feiras de seu mandato, Lula sequer tinha um celular próprio. Para os profissionais de monitoramento das redes identificados com o campo progressista, não é exagero dizer que o cenário era catastrófico.
Isso é, até o embarque de André Janones.
O deputado federal do AVANTE/MG desistiu de sua candidatura à presidência para assessorar Lula (nesse caso, leia-se levá-lo pela mão até a frente de uma câmera de celular) no espinhoso campo das redes sociais, e de promover o maior ataque sistêmico que a extrema-direita já enfrentou ao articular com perfis progressistas de grande alcance, como Felipe Neto. Utilizando das mesmas táticas incendiárias, moralmente questionáveis e altamente eficazes, Janones quebrou o monopólio que o bolsonarismo julgou ser seu.
TSE, STF E FORÇAS ARMADAS
Pela primeira vez desde a redemocratização, as instituições democráticas responsáveis por garantir a lisura do processo eram identificadas por uma parcela da população como o inimigo a ser derrotado. Essa crispação foi resultado das mais de cem interações conflituosas entre o Chefe do Executivo e o STF durante o seu mandato ( CHIODI; BERNARDI, 2022), em especial no Sete de Setembro de 2021, quando Bolsonaro prometeu não mais cumprir nenhuma decisão judicial do Ministro do STF Alexandre de Moraes – que viria a ser o Presidente do TSE nessa eleição.
Ao invés de fingir normalidade em um cenário altamente volátil e violento, Moraes tomou para si a responsabilidade de criar grupos especializados no monitoramento de redes sociais, acompanhar e resolver com celeridade eventuais ilegalidades e defender a reputação da urna eletrônica como o método eleitoral mais seguro do mundo. Ironicamente, grande parte da responsabilidade na promoção de desconfiança nas urnas eletrônicas é de outra Instituição de Estado: As Forças Armadas. Convidadas pelo Ministro Fachin a fazer parte de uma comissão para acompanhar o processo eleitoral, generais do Exército pronunciaram desconfiança no sistema, exigiram auditoria no código-fonte das urnas e nos dados de eleições anteriores. A negação do TSE em ceder os dados às Forças Armadas – que, por óbvio, não contam com papel algum no processo eleitoral democrático senão o de apoio, foi altamente capitalizado pela extrema-direita como indício de fraudes eleitorais.
PRIMEIRO TURNO
As primeiras semanas da campanha eleitoral foram centradas na repercussão da posse de Moraes como presidente do TSE e no desempenho dos candidatos na sabatina do Jornal Nacional, considerado um dos melhores momentos da campanha de Lula. A campanha petista também aproveitou da divulgação dos imóveis pagos em dinheiro vivo pelo clã Bolsonaro. Outro fator de impacto nas redes foi a repercussão do Debate da Band, em 28/08, quando Bolsonaro atacou a jornalista Vera Magalhães – evento explorado pela campanha petista que, com sucesso, fomentou a rejeição do eleitorado feminino ao atual presidente.
No contra-ataque, aliados de Bolsonaro impulsionaram chamamentos para o Sete de Setembro de 2022, data em que se comemorou o bicentenário da Independência do Brasil, na intenção de fazer da data um grande palanque político. As redes repercutiram a reportagem do portal Metrópoles de que empresários apoiadores do presidente e candidato à reeleição Jair Bolsonaro (PL), defenderam golpe de Estado no Brasil caso o candidato do PT vencesse as eleições e a decisão de Moraes de determinar busca e apreensão na casa dos empresários.
O mês de setembro iniciou na expectativa dos atos do dia 07, convocados em nome dos valores bolsonaristas de liberdade de expressão, conservadorismo e fé, antagonismo da mídia, das pesquisas de intenção de voto, na adversidade aos tribunais superiores e o processo eleitoral. A data nacional foi sequestrada pela campanha do presidente e tornou-se efetivamente em um palanque, fornecendo conteúdo audiovisual para ser utilizado como prova do “DataPovo” – termo usado por apoiadores do presidente como forma de contrapor os institutos de pesquisa, uma espécie de demonstração de intenção de votos através da análise visual quantitativa de manifestantes em eventos, comícios e motociatas. Esse grande palanque bolsonarista foi solapado pelo falecimento da Rainha Elizabeth no dia seguinte. O post de Lula em homenagem à Rainha teve o dobro de likes que a principal postagem de Bolsonaro. Essa foi a primeira vez que o bolsonarismo perdeu o controle da agenda em todo o período eleitoral.

Figura 1 – Reprodução: Twitter
A extrema-direita passou o resto do primeiro turno dividindo a munição em duas frentes: ataques a Lula e aos Ministros do STF/TSE. Enquanto isso, o 7 de Setembro foi utilizado como prova de que Bolsonaro contaria com ampla aprovação popular, sendo sensível o sentimento de “já ganhou” – tanto por apoiadores quanto pelo próprio presidente. Dessa forma, qualquer resultado divergente da reeleição do atual presidente seria resultado de uma fraude eleitoral. Com a divulgação de pesquisas menos tradicionais apontando a vitória de Bolsonaro, um apresentador da Jovem Pan afirmou que as pesquisas estariam se aproximando da realidade das ruas, “do DataPovo, do DataMoto, do Data Live e do Data 7 de setembro”. O argumento fortalecia o discurso de que Bolsonaro só sairia derrotado das urnas caso o processo eleitoral fosse fraudado, além de estimular ataques a entrevistadores de institutos julgadas ilegítimas pelo segmento.
A adesão do discurso anti-institucional pela extrema-direita fez com que o campo progressista encampasse a defesa dos processos eleitorais, da integridade e da legalidade, associando a vitória de Lula como a única forma de garantir o Estado Democrático de Direito. Na terceira semana de setembro, o campo progressista ganhou espaço na disputa de narrativas em torno das urnas e do processo eleitoral, arrefecendo o clima de “já ganhou” bolsonarista. Refletindo os institutos de pesquisas tradicionais, os progressistas demonstraram confiança na vitória em primeiro turno, representada na #LulaNoPrimeiroTurno. Se os ataques ao sistema eleitoral foram incessantes, a defesa do processo democrático por uma frente ampla de atores políticos e da sociedade civil foram ainda melhores.
Cerca de 10 dias antes da votação do primeiro turno, o campo progressista superou a hegemonia da direita em número de interações, curtidas e comentários pela primeira vez desde o início da campanha eleitoral – algo que não aconteceu em 2018. Em contrapartida, foi registrado o aumento nas menções à fraude eleitoral, especialmente nos procedimentos de apuração e às pesquisas eleitorais. Os vídeos de Lula no TikTok foram os mais vistos de um candidato à presidência por três semanas consecutivas, sendo que o último alcançou 6,4 milhões de visualizações.
Na última semana do primeiro turno, foi registrado o disparo em massa de SMS para milhares de celulares, com mensagens incentivando apoiadores a se levantarem contra a possível derrota de Bolsonaro nas urnas, assim como a vinculação de Lula com o líder do PCC, Marcola. Esses movimentos foram categorizados como as tentativas de arranjar uma “bala de prata”, que garantisse um segundo turno.
A alegação de fraude no processo eleitoral foi a marca da extrema-direita no dia da eleição. Durante a apuração de votos para presidência da República esse campo divulgava as parciais como prova de que Bolsonaro teria a maioria dos votos, ao contrário do que apontavam os institutos de pesquisas tradicionais. Perfis divulgaram supostas tendências matemáticas como se fossem provas da adulteração do algoritmo do TSE, programado para garantir a vitória de Lula e elipsar os votos de Bolsonaro, principalmente quando os votos de regiões de predominância petista reduziram a vantagem inicial de Bolsonaro, até o momento da virada de Lula (cerca de 20h) e a consolidação da vantagem petista.
Para esses atores políticos, a urna eletrônica foi utilizada pois o STF e o TSE recusaram a garantia da lisura do processo para favorecer Lula. As Forças Armadas passaram a ser convocadas para corrigir essa “injustiça”. Ao final da apuração e constando que Bolsonaro recebeu mais votos do que o limite da margem de erro dos institutos tradicionais, a extrema direita acusou-os de fabricarem dados artificiais para induzir os a acreditar que a distância entre os candidatos era muito maior do que a realidade. O percentual de Lula (PT), dentro da margem de erro, não foi contestado.
SEGUNDO TURNO
Após o resultado do primeiro turno, foi registrada a cristalização de uma narrativa de “guerra espiritual” na extrema-direita. Mais do que a escolha de um presidente ou um plebiscito sobre a atuação dos quatro anos de mandato de Bolsonaro, o processo eleitoral para presidência seria a concretização da batalha bíblica do Bem contra o Mal. Essa cristalização foi impulsionada pelos bons resultados do PL, partido de Bolsonaro, no primeiro turno. Bolsonaro elegeu a maioria dos seus ex-ministros aos cargos de deputados ou senadores, seu atual vice-presidente e a maioria de seus aliados de primeira hora, que dedicaram todos seus recursos e esforços na missão de reconduzir o chefe do Executivo. Desse caldo, surgiu a tônica que marcaria o segundo turno: a demonização do candidato Lula, do PT e a mobilização do ecossistema desinformativo de tal forma que fez o primeiro turno parecer, pelo retrovisor, um treino leve. Além disso, a ida para o segundo turno com porcentagem mais competitiva do que apontavam os institutos de pesquisa resultaram em um grande impulso às doações de campanha: se no primeiro turno a campanha do PL recebeu R$ 25 milhões em doações de pessoas físicas, No segundo turno esse valor saltou para R$ 65 milhões.

Figura 2 – Fonte: G1/TSE
Logo na primeira semana, foram circulados vídeos de um suposto satanista dizendo que Lula tem um pacto para ganhar as eleições. Em contrapartida, vídeos de Bolsonaro em lojas maçônicas foram veiculados por Janones para abalar as relações com católicos e evangélicos mais aguerridos. Com o intuito de aumentar a simpatia com Bolsonaro e a rejeição a figura de Lula e o PT, as desinformações veiculadas nas redes socias escalaram geometricamente. Após associar Lula ao PCC e a Marcola, a senadora eleita Damares Alves publicou um trecho de sua fala em uma Igreja, dizendo que havia descoberto um surto de estupros de recém-nascidos, e que possuía imagens de crianças sendo mutiladas, torturadas e traficadas na Ilha de Marajó. A deputada Carla Zambelli afirmou que os crimes denunciados pela senadora eleita são patrocinados pela esquerda, pela Rede Globo, Ministério Público e STF. Foram divulgadas também mensagens afirmando que o Projeto Moradia Social, defendido por Lula, obrigaria famílias com imóveis maiores de 60m2 a cederem espaço para moradores de rua.
Uma peça muito utilizada nas redes sociais foi a divulgação de que Lula havia vencido, com ampla maioria, nas urnas presentes em presídios, associando-o a criminalidade. A visita de Lula ao Complexo do Alemão, em que o ex-presidente usou um boné com a sigla CPX (referente a Complexo), foi utilizada pela extrema-direita como se essa fosse a sigla de “cupinxa”, atribuída de forma errônea e preconceituosa como um tipo de comunicação entre facções.
Enquanto isso, outros deputados e senadores eleitos turbinaram os ataques às urnas eletrônicas e ao processo eleitoral, em volume superior a qualquer momento do primeiro turno. As alegações concentraram-se na ideia de que as eleições foram fraudadas e que Bolsonaro deveria ter ganho já no primeiro turno. Nesse momento chegou ao auge os clamores por ativa participação das Forças Armadas, seja fiscalizando as urnas e o TSE, seja através do Artigo 142 da Constituição Federal de 1988, utilizada como justificativa de um eventual golpe militar. Nas semanas finais do segundo turno, o YouTube presenciou aumento de 5x na quantidade de vídeos postados com ataques ao TSE, com mais de 3 milhões de visualizações.
No dia 11, Janones auxiliou na circulação de um vídeo erótico homossexual supostamente atribuído a Níkolas Ferreira – 26 anos, bolsonarista, deputado federal mais votado do Brasil. Eleito por Minas Gerais, Níkolas estava comprometido a ajudar, ao lado do governador reeleito em primeiro turno Romeu Zema, a virar o estado que deu a vitória para Lula no primeiro turno para Bolsonaro. Após o incidente, o deputado cessou suas atividades por cerca de uma semana até desmentir o caso. Toda a situação fez com que o deputado – uma das joias mais brilhantes na coleção de Bolsonaro – fosse proibido de estar ao lado do presidente em Aparecida no feriado do dia 12, evento que o presidente tentou – sem nenhum sucesso – aumentar sua simpatia com o eleitorado católico. Uma desinformação sobre Níkolas obrigou o deputado eleito a ficar de fora dos dois maiores esforços da campanha no momento mais crucial. De forma similar, no dia 19, um trecho da entrevista de Bolsonaro em um podcast afirmando que teria “pintado um clima” ao ver adolescentes venezuelanas foi amplamente divulgado pelo campo progressista – e abalou a campanha de Bolsonaro, que se viu obrigada a redirecionar toda sua atuação por preciosos dias inteiros em colocar panos quentes na crise de imagem.
Outro momento importante na campanha digital no o segundo turno foi o Debate da Band no dia 16. Durante a transmissão, percebeu-se que a arena progressista foi a mais atuante. Além disso, a alta posição de perfis pequenos e medianos sugeriu que não houve uma coordenação centralizada de atuação nas redes, nem no campo normalmente articulado da direita bolsonarista, nem da campanha de Lula para promover a hegemonia comunicacional durante o debate, mas sim um movimento orgânico de contas pequenas em defesa do petista.
Na última semana do segundo turno, ocorreu um dos eventos mais importantes (senão o mais importante) de todo o processo eleitoral. A campanha de Bolsonaro estava surfando em um de seus melhores momentos. Somada ao sucesso da Super Live do presidente com nomes de peso do sertanejo – e até com Neymar Jr, o ecossistema de apoio a Bolsonaro conseguiu criar e manter a narrativa de censura e atuação ilegal em decorrência das decisões do TSE em limitar o alcance da Jovem Pan, do Brasil Paralelo e da concessão de direitos de resposta a Lula. A sensação de otimismo, porém, foi destruída com a prisão de Roberto Jefferson.
Em um primeiro momento, a extrema-direita se articulou pela defesa de Jefferson, colando em Alexandre de Moraes o título de autoritário. A Jovem Pan entrevistou Cristiane Brasil, ex-ministra de Bolsonaro e filha de Jefferson, que atribuiu à “Gestapo do Xandão” a responsabilidade de qualquer desfecho violento. Após a informação de que Jefferson teria atirado e utilizado granadas contra os policiais, Bolsonaro se esforçou para desvincular-se do caso, chamando o ex-presidente do PTB de “bandido” e afirmando nem ter nenhuma foto com ele. Esse movimento dividiu a base de apoio entre aqueles que aceitaram o distanciamento e os que criticaram o abandono de mais um aliado.
No campo progressista, o argumento central difundindo nas redes foi que a ação seria premeditada para tornar Roberto Jefferson um mártir, corroborado pela presença de armamentos pesados na residência de uma pessoa presa em regime domiciliar. Toda a situação foi tratada como a demonstração real do acirramento da violência política causada pela retórica bolsonarista.
Na tentativa de reverter a narrativa a seu favor, a campanha de Bolsonaro, na figura de Fábio Faria, divulgou o caso do Radiolão – suposta irregularidade que teria retirado da campanha de Bolsonaro a veiculação de mais de cem mil inserções de rádio – o que sinalizaria uma fraude. De qualquer forma, a campanha não apresentou nenhuma prova sobre o caso, e o pedido foi indeferido.
Foi nesse cenário que as duas campanhas se encontraram na última oportunidade da eleição: O debate da Globo. Dois dias antes do debate, Janones publicou no Twitter uma série de fotos supostamente retiradas do celular de Gustavo Bebianno, presidente nacional do PSL em 2018, um dos responsáveis pela eleição de Bolsonaro e primeiro de uma série de aliados que racharam com o governo no primeiro ano de mandato. Bebbiano morreu em 2020. A jogada foi encarada como “terrorismo psicológico” pela campanha de Bolsonaro.
Não bastasse a falta de um fato novo no debate, o assunto do dia seguinte seria outra catástrofe para a imagem da campanha presidencial. Vídeos da deputada Carla Zambelli correndo com uma arma na mão atrás de um homem negro, à luz do dia, inundaram as redes sociais na véspera da eleição. A versão da deputada de que teria sido agredida foi rapidamente desmentida nos vídeos de diversos ângulos que registraram a cena. Nesse mesmo dia, atendendo o pedido do deputado Paulo Teixeira (PT-SP) que denunciou um suposto uso eleitoral da Polícia Rodoviária Federal em favor de Bolsonaro, o Ministro Alexandre de Moraes proibiu operações da PRF relacionadas ao transporte de eleitores.
O último dia do segundo turno amanheceu com uma mensagem enigmática nos meios bolsonaristas, coordenando os eleitores do atual presidente a votarem até o meio-dia, dando a entender que alguma ação seria articulada para o período da tarde.
Apesar da decisão de Moraes, foram diversos relatos de operações da PRF nos estados. até as 14h55, a corporação registrou 560 abordagens a veículos – sendo a metade apenas no Nordeste. Pela tarde, o TSE determinou que o diretor-geral da PRF (que pediu votos para o atual presidente nas suas redes sociais mais cedo nesse dia) explicasse as operações sobre transporte público de eleitores. Foram circulados também vídeos de agentes da PRF comemorando o bloqueio de eleitores de Lula. As postagens que tiveram maior volume nas redes sociais foram as repercussões das denúncias realizadas pelo campo progressista acerca das ações ilegais, tratando-as como uma tentativa de golpe.
Ainda no começo do dia 30, o clima entre os apoiadores de Bolsonaro era de confiança, postando fotos nos locais de votação e manifestando votos pelo amor à pátria. Os ataques às urnas, ao sistema eleitoral e ao TSE escalaram com o andar da votação, principalmente associando as operações da PRF no nordeste como combate a compra de votos PT – narrativa de fraude que se consolidou no fim da apuração, quando a vitória de Lula era irreversível. Nesse momento, há um pico de menções a fraudes, compra de votos e, como do Artigo 142 como única solução. As teorias versando um suposto “algoritmo malicioso” voltou a ser empregado, aos moldes do primeiro turno. O descontentamento foi tão ruidoso quanto foi o silêncio implacável no Palácio do Planalto.
TERCEIRO TURNO
No dia seguinte ao resultado da eleição presencial, manifestantes trancaram rodovias em diversos estados. As reivindicações eram as mais diversas. Entre elas, menções ao Artigo 142, visto como uma saída para resolver o “problema” da fraudada vitória de Lula. Após tomarem ciência que o Artigo 142 depende da aprovação do Congresso, houve a substituição desse clamor por outros termos, como “intervenção federal” e “intervenção militar”. Os ataques a Lula diminuíram enquanto os alvos voltaram a ser Ministros, o TSE e o sistema democrático.

Figura 3 – Mensagem divulgada em grupos bolsonaristas no WhatsApp sobre Artigo 142, Intervenção Militar e Federal
Nesse espírito de prontidão e iminência de que a presença nas rodovias e os contratempos causados pela sua ação trariam resultados a qualquer momento, cada movimentação de veículos militares era comemorada e divulgada como prova de uma intervenção. Outro elemento aguardado com altas expectativas pela extrema-direita (nesse ponto já abertamente golpista) foi o Relatório técnico das Forças Armadas, que supostamente traria provas incontestáveis das fraudes no primeiro e no segundo turno. A conclusão de que o Relatório das Forças Armadas confirma segurança das urnas eletrônicas foi recebido com alto grau de decepção por parte dos apoiadores mais acirrados, como se as Forças Armadas estivessem abandonando as pessoas que dedicaram seus dias e noites nas proximidades de prédios militares ao aceitar a vitória de Lula.
BALANÇO: O FUTURO DAS REDES SOCIAIS NO BRASIL OU O FUTURO DO BRASIL NAS REDES SOCIAIS?
O Processo Eleitoral de 2022 atraiu os olhares de toda a sociedade brasileira, foi analisado por especialistas das mais diversas áreas e termina (isso é, o primeiro e o segundo turno) com mais perguntas do que respostas. A utilização das redes sociais, as regras, limites e abusos estavam mais claros que no pleito de 2018, mas a ausência de uma legislação específica – principalmente de um marco regulatório da mídia em geral – possibilita que campanhas bilionárias possam jogar às sombras da lei, dificulta a atuação do TSE e a garantia das condições básicas de igualdade entre os candidatos.
O período eleitoral pode ter acabado dia 30/10, mas a presença de manifestantes abertamente golpistas, financiados por empresários igualmente antidemocráticos, defendidos por deputados e senadores eleitos por meio de um sistema eleitoral que taxam de ilegal, inauditável e fraudulento, não são um bom sinal para a estabilidade do sistema democrático no Brasil. Nos Estados Unidos, quando Donald Trump iniciou sua jornada golpista, as redes sociais americanas baniram seu perfil em suas plataformas, limitando o alcance de sua retórica beligerante e conspiratória. Aqui, apenas recentemente figuras relevantes tem suas contas desmonetizadas ou retiradas por decisão judicial. A regulamentação da mídia e das redes sociais, o estabelecimento de regras claras nos limites entre liberdade de opinião e atuações criminosas, assim como a destruição do ecossistema desinformativo da extrema-direita não pode depender da boa-vontade do TSE ou dos Ministros do STF, mas deve ser um projeto de país, garantido em nossa Constituição.
Com o esforço de milhares de atores, a democracia brasileira e o Estado de Direito entraram e saíram vivos do Processo Eleitoral de 2022, mas não sem o ataque incessante de uma parcela relevante de candidatos a cargos políticos e do próprio eleitorado. Aqui, acompanhamos a forma com que as campanhas eleitorais usaram o campo digital como uma das principais arenas da disputa política, e nada indica que as próximas eleições usarão menos dessa esfera. Para a democracia brasileira, garantir que as eleições de 2026 não presenciem essas dinâmicas, tenha regras claras e esteja preparada para lidar com estruturas abertamente golpistas é fundamental para a garantia de sua existência.