Autoria: Elsa Hellqvist.
Resumo: O texto analisa os processos históricos e políticos que levaram Finlândia e Suécia a solicitar adesão à OTAN em 2022. Argumenta que a invasão russa da Ucrânia foi o fator imediato da mudança, mas que trajetórias distintas de neutralidade, relações com a Rússia e percepções de segurança ajudam a explicar as diferenças entre os dois países.
Palavras-chave: Finlândia; Suécia; OTAN; Rússia; neutralidade; segurança internacional.
Abstract: The essay examines the historical and political processes that led Finland and Sweden to apply for NATO membership in 2022. It argues that Russia’s invasion of Ukraine was the immediate trigger, while distinct experiences of neutrality, relations with Russia, and security perceptions help explain the different trajectories of the two countries.
Keywords: Finland; Sweden; NATO; Russia; neutrality; international security.
A Finlândia e a Suécia são dois Estados soberanos cujas histórias são, ao mesmo tempo, estreitamente interligadas e fortemente diferentes. Não é possível entender a entrada de um na OTAN sem considerar a posição do outro. Ainda assim, os processos que conduziram à decisão de adesão devem ser compreendidos de maneiras diferentes.
Este texto visa esclarecer os eventos mais importantes que levaram a Suécia e a Finlândia a se candidatarem à adesão à OTAN, bem como aprofundar a compreensão dos motivos pelos quais essa decisão representou uma reviravolta tão significativa na autoimagem e nas políticas dos dois países.

Condições geopolíticas
A Suécia e a Finlândia compartilham uma fronteira terrestre, bem como o acesso ao Mar Báltico. Os dois países estão unidos de várias maneiras. Na Finlândia há uma minoria de língua sueca e, na Suécia, várias minorias de origem finlandesa. A população indígena Saami vive e trabalha tanto no norte da Suécia quanto no norte da Finlândia.
O que distingue principalmente os dois países do ponto de vista geopolítico é o fato de a Finlândia possuir uma fronteira terrestre com a Rússia de mais de 1.000 quilômetros de extensão. A Finlândia pertenceu ou foi ocupada pela Suécia e pela Rússia e não se tornou um Estado soberano até 1917. A Suécia, por sua vez, é considerada um Estado soberano desde o século XVI, embora suas fronteiras nacionais tenham flutuado ao longo da história.
Suécia, a longa paz e a política de neutralidade
Em 16 de fevereiro de 2022, a ministra das Relações Exteriores da Suécia, Ann Linde, leu a declaração de política externa perante o Parlamento sueco, por meio da qual esclareceu que o governo social-democrata da Suécia não pretendia solicitar a adesão à OTAN (Suécia, 2022a). Três meses depois, a mesma ministra das Relações Exteriores, com o apoio de seis dos oito partidos parlamentares, assinou a candidatura da Suécia à OTAN (Suécia, 2022b). Com isso, começou um novo capítulo na história da Suécia e também dos social-democratas suecos.
A Suécia vive em paz há mais de 200 anos, desde o início do século XIX, quando a Finlândia foi perdida para a Rússia, em 1809, e uma última guerra sueca foi lançada contra a Noruega, em 1814. A Suécia, portanto, não participou diretamente nem da Primeira nem da Segunda Guerra Mundial. Após as últimas guerras do século XIX, teve início o que mais tarde, durante a Guerra Fria, veio a ser conhecido como a política sueca de neutralidade. Um inquérito público descreveu entre os objetivos dessa política manter a Suécia independente, manter o país fora dos conflitos das grandes potências e trabalhar pela paz no mundo (Suécia, 2002). Durante o mesmo período em que a política sueca de neutralidade foi mais relevante, a Suécia foi frequentemente liderada por governos social-democratas. Os social-democratas tornar-se-iam, posteriormente, o último grande partido do Parlamento sueco a se mostrar favorável à adesão à OTAN: somente em 15 de maio de 2022 a liderança social-democrata anunciou que apoiava a entrada na organização.
Apesar da política de neutralidade, nunca foi segredo que a maior ameaça à segurança e à soberania da Suécia era, nas avaliações internas, a União Soviética (Suécia, 2002) e, mais tarde, a Rússia (Suécia, 2022a). Também não é segredo que a Suécia há muito tempo mantém cooperação militar com os Estados Unidos e outras potências ocidentais. Com a adesão da Suécia à União Europeia, em 1995, iniciou-se o que pode ser visto como um processo de desmantelamento da política sueca de neutralidade, tendo em vista a política externa e de segurança comum descrita no Tratado de Maastricht. Nos últimos anos, a Suécia abandonou o conceito de política de neutralidade e passou a utilizar a ideia de “liberdade de aliança”.
Com a invasão russa da Ucrânia, em 24 de fevereiro de 2022, começaram os passos que levariam à adesão à OTAN e ao fim definitivo da neutralidade e da liberdade de aliança suecas.

Finlândia e a relação com Moscou
A Finlândia não gozou do mesmo período de mais de 200 anos sem participação em guerras. Como mencionado anteriormente, pertenceu à Suécia até 1809, antes de passar ao domínio do Império Russo, ao qual esteve vinculada até 1917. Durante a Segunda Guerra Mundial ocorreu no país o que veio a ser conhecido como Guerra de Inverno Finlandesa. Em 1939, a União Soviética de Stalin, apesar da existência de um acordo soviético-finlandês de não agressão, atacou a Finlândia.
Alguns analistas e especialistas em segurança traçaram paralelos entre a Guerra de Inverno finlandesa e a invasão russa da Ucrânia (Tanha, 2022). Isso ocorreu, em parte, porque as forças militares finlandesas eram inferiores às do agressor e a União Soviética esperava que uma guerra curta e simples fosse rapidamente vencida, o que acabou se mostrando incorreto. O espírito de luta e o moral dos soldados finlandeses eram elevados, e o país revelou-se mais coeso do que Stalin imaginava. A Guerra de Inverno terminou com um tratado de paz após 15 semanas de resistência finlandesa, no qual a União Soviética conquistou várias áreas da Finlândia que havia reivindicado anteriormente.
Há muito mais a ser dito sobre as experiências da Finlândia durante a Segunda Guerra Mundial, inclusive sobre a intervenção alemã. Para os objetivos deste texto, entretanto, o ponto fundamental é que a Finlândia experimentou um ataque soviético no século XX apesar das promessas de não agressão.
A experiência finlandesa de agressão soviética influenciou sua estratégia de política de segurança. Até fevereiro de 2022, o país manteve comunicação e relações com a União Soviética e, posteriormente, com a Rússia, ao mesmo tempo em que construiu uma forte capacidade de defesa. Törnudd (2005) observa que a política finlandesa durante a Guerra Fria combinava acomodações às demandas do Leste com preocupações relacionadas à possibilidade de que uma nova agressão contra a Finlândia pudesse contribuir para aproximar a Suécia da OTAN.
A opinião popular e as reações russas
As histórias particulares da Suécia e da Finlândia ajudam a explicar as diferenças observadas na opinião pública sobre a adesão à OTAN após a invasão da Ucrânia pela Rússia, em 24 de fevereiro de 2022.
Nos meses anteriores à invasão, apenas cerca de 30% dos suecos apoiavam a adesão à OTAN (Rosén, 2022), enquanto aproximadamente 40% dos finlandeses manifestavam posição favorável. Em maio de 2022, o apoio havia alcançado 57% na Suécia e 76% na Finlândia (Rosén, 2022; Sundholm, 2022). Ao mesmo tempo, cerca de 60% dos suecos afirmavam que o anúncio finlandês de que o país pretendia solicitar a adesão havia influenciado sua própria visão sobre a entrada sueca na organização (Rosén, 2022).
O que se observa nessas pesquisas é que a Finlândia, cuja experiência histórica foi marcada pela guerra e pela presença constante da Rússia, apresentava uma opinião pública mais claramente favorável à adesão à OTAN após a demonstração do que a Rússia seria capaz de fazer contra um país vizinho. A Suécia, por sua vez, caracterizada historicamente por políticas de neutralidade e por uma autoimagem associada ao trabalho pela paz, apresentava um apoio comparativamente menor e, em muitos aspectos, influenciado pelo comportamento dos finlandeses.
Não eram apenas os cidadãos suecos e finlandeses que manifestavam opiniões sobre as candidaturas à OTAN. A Rússia também buscou fazer sua voz ser ouvida. Veículos de comunicação de vários países relataram ameaças russas de que “medidas” seriam tomadas caso a Suécia e a Finlândia ingressassem na OTAN ou ocorresse uma expansão da presença militar da organização em território sueco e finlandês (ABS News, 2022; CNN Brasil, 2022).
Essas ameaças, entretanto, não eram novidade, mas faziam parte de uma retórica russa existente havia vários anos. Em 2016, por exemplo, Sergei Lavrov já havia advertido que a Rússia adotaria as medidas consideradas necessárias caso a Suécia ingressasse na OTAN (Winiarski, 2016). As primeiras reações russas às candidaturas sueca e finlandesa foram, contudo, consideradas mais fracas do que se esperava, algo atribuído por alguns analistas ao fato de a Rússia estar fortemente envolvida na guerra contra a Ucrânia (Laurén, 2022).
O caminho a seguir
A invasão russa da Ucrânia foi a razão direta pela qual a Suécia e a Finlândia apresentaram pedidos de adesão à OTAN. A decisão, entretanto, também foi condicionada por processos anteriores: a Suécia já havia gradualmente abandonado sua tradicional política de neutralidade, enquanto a Finlândia mantinha historicamente uma postura de vigilância diante da possibilidade de agressão russa.
Naquele momento, iniciava-se um processo no qual todos os países membros da OTAN precisariam decidir se aceitariam ou não a Suécia e a Finlândia na aliança. Isso já havia criado problemas imprevistos, uma vez que a Turquia manifestara oposição à entrada dos dois países.
Para um cientista político, há muitas questões e debates possíveis a partir desses acontecimentos. Pesquisadores interessados em representação e governança podem destacar o fato de que a opinião pública sobre a adesão à OTAN não foi testada em uma eleição ou referendo antes da apresentação dos pedidos, nem na Finlândia nem na Suécia. Interessados na história dos partidos políticos podem investigar os acontecimentos e processos que levaram à adesão e a forma como os partidos social-democratas dos países nórdicos modificaram, ao longo do tempo, suas posições sobre política de defesa.
Pesquisadores de política internacional e do equilíbrio de poder podem, por sua vez, refletir sobre como a situação de segurança na Europa foi alterada e sobre o que o aumento da influência dos Estados Unidos nos países nórdicos representa para a geopolítica regional. É importante lembrar que os países escandinavos estão próximos de espaços estratégicos do ponto de vista militar e econômico, como o Ártico e o Mar Báltico.
Por fim, pesquisadores de política internacional também podem acompanhar as demandas da Turquia e a influência que esse país exerce, em razão de sua posição dentro da OTAN, sobre os demais países europeus.
Independentemente da perspectiva escolhida pelo pesquisador, é importante lembrar que nada pode ser compreendido no vácuo. História, identidade e política de segurança precisam ser consideradas conjuntamente.
Referências
ABS NEWS. Russia threatens retaliation as Finland and Sweden aim to join NATO. 13 maio 2022. Disponível em: https://youtu.be/X8orWlG1YBk. Acesso em: 22 maio 2022.
CNN BRASIL. Putin diz que Rússia responderá se Otan reforçar militarmente Suécia e Finlândia. 16 maio 2022. Disponível em: https://youtu.be/kne7g_FANxg. Acesso em: 22 maio 2022.
LAURÉN, Anna-Lena. Än så länge förvånansvärt lite muller från Kreml angående Natomedlemskapet. Dagens Nyheter, Estocolmo, 18 maio 2022. Disponível em: https://www.dn.se/varlden/anna-lena-lauren-an-sa-lange-forvanansvart-lite-muller-fran-kreml-angaende-natomedlemskapet/. Acesso em: 22 maio 2022.
ROSÉN, Hans. DN/Ipsos: Majoritet för Nato efter Finlands och S besked. Dagens Nyheter, Estocolmo, 17 maio 2022. Disponível em: https://www.dn.se/sverige/dn-ipsos-majoritet-for-nato-efter-finlands-och-s-besked/. Acesso em: 22 maio 2022.
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TANHA, Sophie. Försvarsexpert: “Påminner om finska vinterkriget”. Hufvudstadsbladet, Helsinque, 20 mar. 2022. Disponível em: https://www.hbl.fi/artikel/forsvarsexpert-paminner-om-finska-vinterkriget/. Acesso em: 22 maio 2022.
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