O caminho da Finlândia e da Suécia à OTAN

Elsa Hellqvist (1)

A Finlândia e a Suécia são dois estados soberanos cujas histórias são ao mesmo tempo estreitamente interligadas e fortemente diferentes. Não é possível entender a entrada de um na OTAN sem considerar a posição do outro. Ainda assim, os processos que conduziram à decisão de adesão devem ser compreendidos de maneiras diferentes.

Este texto visa esclarecer os eventos mais importantes que levaram a Suécia e a Finlândia a se candidatarem à adesão à OTAN, bem como aprofundar a compreensão do motivo da adesão acarretar uma tal reviravolta na autoimagem e nas políticas dos países.

Fonte: https://www.nato.int/nato-on-the-map/ (adaptado)

Condições Geopolíticas

A Suécia e a Finlândia compartilham uma fronteira terrestre, bem como o acesso ao mar – o Mar Báltico. Os dois países estão unidos de várias maneiras. Na Finlândia há uma minoria que fala sueco e na Suécia há várias minorias que falam finlandês. A população indígena Saami vive e trabalha no norte da Suécia, bem como no norte da Finlândia.

O que distingue principalmente os dois países do ponto de vista geopolítico é o fato de que a Finlândia possui uma fronteira terrestre com a Rússia de mais de 1.000 quilômetros de extensão. A Finlândia pertenceu ou foi ocupada pela Suécia e pela Rússia, e não se tornou um estado soberano até 1917. A Suécia é considerada um estado soberano desde o século XVI, embora suas fronteiras nacionais tenham flutuado.

Suécia, a longa paz e a política de neutralidade

Em 16 de fevereiro de 2022, a ministra das Relações Exteriores da Suécia, Ann Linde, leu a declaração de relações exteriores perante o Parlamento sueco, através da qual esclareceu que o governo social-democrata da Suécia não pretende se candidatar à adesão à OTAN (2). Três meses depois, a mesma Ministra das Relações Exteriores, com o apoio de seis dos oito partidos parlamentares, assinou a candidatura da Suécia à OTAN (3). Com isso, começou um novo capítulo na história da Suécia e dos social-democratas suecos.

A Suécia tem paz há mais de 200 anos, desde o início do século XIX, quando a Finlândia foi perdida para a Rússia em 1809 e uma última guerra sueca em 1814 foi lançada contra a Noruega. A Suécia, portanto, não participou diretamente nem da Primeira nem da Segunda Guerra Mundial. Após as últimas guerras do século XIX, teve início o que mais tarde, durante a Guerra Fria, veio a ser conhecido como a política sueca de neutralidade. Um inquérito público de 2002 descreve os objetivos da política de neutralidade, entre outros: manter a Suécia independente, manter a Suécia fora dos conflitos das grandes potências e trabalhar pela paz no mundo (4). Durante o mesmo período em que a política sueca de neutralidade foi mais relevante, a Suécia foi mais frequentemente liderada por um governo social-democrata. Os social-democratas mais tarde se tornariam o último grande partido do parlamento sueco a se demonstrar favorável a adesão a OTAN (apenas em 15 de maio de 2022 a liderança social-democrata anunciou que apoia a adesão).

Apesar da política de neutralidade, nunca foi segredo que a maior ameaça à segurança e soberania da Suécia foi, em considerações internas, a União Soviética (5) e, mais tarde, a Rússia (6). Também não é segredo que a Suécia há muito tempo se dedica à cooperação militar com os Estados Unidos e outras potências ocidentais. Com a adesão da Suécia à União Europeia em 1995, iniciou-se o que deve ser visto como um desmantelamento da política sueca de neutralidade, com referência à política externa e de segurança comum descrita no Tratado de Maastricht de 1993. Nos últimos anos, a Suécia abandonou a conceito de política de neutralidade e, em vez disso, usou o conceito de “liberdade de aliança”.

Com a invasão russa à Ucrânia em 24 de fevereiro de 2022, começaram os passos para a adesão à OTAN e o fim absoluto da neutralidade e da liberdade de aliança sueca.

Peter Hultqvist and Lloyd Austin at the meeting in Washington DC. Photo: Toni Eriksson/Government Offices of Sweden

Finlândia e a relação com Moscou

A Finlândia não gozou do mesmo período de 200 anos sem participar de guerras. Como mencionado anteriormente, ela pertenceu à Suécia até 1809, antes de ser assumida pelo czarismo russo, ao qual fez parte até 1917. Durante a Segunda Guerra Mundial, o que veio a ser conhecido como Guerra de Inverno Finlandesa ocorreu naquele país. A União Soviética de Stalin, em 1939, apesar de um acordo soviético finlandês de não-agressão, atacou a Finlândia.

Algumas pessoas, incluindo especialistas em segurança (7), hoje traçam paralelos entre a Guerra de Inverno finlandesa e a invasão russa da Ucrânia. Isso ocorreu em parte porque os militares finlandeses eram inferiores ao agressor e a União Soviética esperava que uma guerra curta e simples seria vencida, o que acabou se mostrando errado. O espírito de luta e o moral dos soldados finlandeses eram altos e o país era mais coeso do que Stalin pensava e havia sido informado. A Guerra de Inverno Finlandesa terminou com um tratado de paz, após 15 semanas de resistência finlandesa, no qual a União Soviética conquistou várias partes da Finlândia que haviam reivindicado anteriormente. Há mais a ser dito sobre as experiências da Finlândia durante a Segunda Guerra Mundial, que incluem também a intervenção alemã, mas o importante a ser levado em conta no contexto deste artigo é que a Finlândia experienciou um ataque soviético no século XX, apesar das promessas de não-agressão .

A experiência da Finlândia de agressão soviética influenciou sua estratégia de política de segurança. Até fevereiro deste ano, eles mantiveram comunicação e relações com a União Soviética/Rússia, enquanto construíam uma forte defesa. Em um artigo de 2005, um ex-diplomata finlandês aponta que a razão pela qual a Finlândia não foi submetida a novas agressões russas foi porque eles se curvaram às demandas do Leste, bem como devido ao medo de Moscou de que um ataque à Finlândia pudesse culminar em uma adesão à OTAN por parte da Suécia (8).

A opinião popular e as reações russas

As histórias peculiares da Suécia e da Finlândia podem explicar as diferentes opiniões públicas para a adesão à OTAN após a invasão da Ucrânia pela Rússia em 24 de fevereiro de 2022. Nos meses anteriores à invasão, apenas cerca de 30% dos suecos (9) e cerca de 40% dos finlandeses (10) apoiavam a adesão à OTAN. Em maio de 2022, 57% dos suecos e 76% dos finlandeses apoiavam essa proposta. Ao mesmo tempo, 60% dos suecos afirmam que o anúncio da Finlândia de que pretendem candidatar-se à adesão afetou a sua visão acerca da adesão sueca (11).

O que se vê nas pesquisas é que a Finlândia, que se caracterizou pela guerra e pela presença constante da Rússia, tem uma opinião popular mais clara a favor da adesão à OTAN, já que ficou demonstrado o que a Rússia é capaz de fazer contra um país vizinho. Enquanto isso, a Suécia, que se caracteriza por políticas de neutralidade e visões de trabalho pela paz, tem uma opinião mais fraca, que é em muitos aspectos influenciada pelos finlandeses.

Não são apenas os cidadãos suecos e finlandeses que têm opiniões sobre as aplicações da OTAN, a Rússia também quer que sua voz seja ouvida. Os jornais de vários países relataram as ameaças russas de que “medidas” serão tomadas no caso de adesão da Suécia e da Finlândia à OTAN e no caso de uma expansão das tropas da OTAN em solo sueco e finlandês (12) (13). No entanto, essas ameaças não são novidades, mas uma retórica russa que existe há muitos anos (14). Até agora as reações russas às candidaturas da Suécia e da Finlândia têm sido mais fracas do que o esperado, algo que alguns acreditam ser devido ao fato de a Rússia estar totalmente ocupada com o conflito na Ucrânia (15).

O caminho a seguir

A invasão russa à Ucrânia é a razão direta pela qual a Suécia e a Finlândia apresentaram pedidos de adesão à OTAN. No entanto, foi também causado pelo fato de a Suécia ter abolido há muito tempo sua política de neutralidade e pelo fato de a Finlândia estar constantemente em guarda diante das agressões russas. Aguarda-se agora um processo em que todos os países da OTAN precisam tomar uma posição sobre se querem ou não admitir a Suécia e a Finlândia na aliança (algo que já criou problemas imprevistos, uma vez que a Turquia se opôs à entrada dos países).

Para um cientista político, há muitas questões e discussões possíveis a serem tiradas disso. Qualquer pessoa interessada em representação e governança pode destacar o fato de que a opinião pública para a adesão à OTAN não foi testada em uma eleição ou em um referendo antes da apresentação dos pedidos nem na Finlândia nem na Suécia. Interessados na história dos partidos políticos podem investigar mais sobre os eventos e anos que levaram à adesão e como os partidos social-democratas nos países nórdicos mudaram ao longo do tempo em sua atitude em relação à política de defesa.

Interessados em política internacional e no equilíbrio de poder internacional podem pensar em como a situação de segurança na Europa mudou agora e o que significa o aumento da influência dos EUA nos países nórdicos para a geopolítica regional. É importante lembrar que os países escandinavos estão cercados por lugares estratégicos do ponto de vista militar e econômico, como o Ártico e o Mar Báltico. Por fim, interessados em política internacional também podem acompanhar as demandas da Turquia e a influência que a Turquia tem, graças à sua posição, sobre os países europeus. Independentemente do ponto em que o pesquisador escolha focar na questão, é importante lembrar que nada pode ser entendido no vácuo – história, identidade e política de segurança – todos devem ser entendidos conjuntamente.

(1) Mestranda em Ciência Política pela Universidade de Uppsala, Suécia. Estudante de intercâmbio na PUCRS 2022.

(2) SUÉCIA. UTRIKESDEPARTEMENTET. Utrikesdeklarationen 2022. 16 de fevereiro de 2022. Disponível em: https://www.regeringen.se/tal/2022/02/utrikesdeklarationen-2022/ Acesso em: 22 de maio de 2022.

(3) SUÉCIA. UTRIKESDEPARTEMENTET. Ansökan om Natomedlemskap undertecknad och överlämnad. 2022. https://www.regeringen.se/artiklar/2022/05/ansokan-om-natomedlemskap-undertecknad-och-overlamnad/ Acesso em: 22 maio 2022

(4) SUÉCIA. STATENS OFFENTLIGA UTREDNINGAR (SOU 2002:108). 2001. Disponóvel em: https://www.regeringen.se/contentassets/996575b3f6004b8491c2911257c6ed0c/kapitel-5-och-6 Acesso em: 22 de maio de 2022.

(5) SUÉCIA. STATENS OFFENTLIGA UTREDNINGAR (SOU 2002:108). 2001. Disponóvel em: https://www.regeringen.se/contentassets/996575b3f6004b8491c2911257c6ed0c/kapitel-5-och-6 Acesso em: 22 de maio de 2022.

(6) SUÉCIA. UTRIKESDEPARTEMENTET. Utrikesdeklarationen 2022. 16 de fevereiro de 2022. Disponível em: https://www.regeringen.se/tal/2022/02/utrikesdeklarationen-2022/ Acesso em: 22 de maio de 2022.

(7) TANHA, Sophie. Försvarsexpert: “Påminner om finska vinterkriget”. Hufvudstadsbladet. Helsinque, p. 1-1. 20 mar. 2022. Disponível em: https://www.hbl.fi/artikel/forsvarsexpert-paminner-om-finska-vinterkriget/ . Acesso em: 22 maio 2022.

(8) TÖRNUDD. Klaus. Finnish Neutrality Policy During the Cold War. P. 43–52 The SAIS Review of International Affairs, vol. 25, no. 2. 2005. JSTOR, https://www.jstor.org/stable/26999271. Acesso em 22 de maio 2022.

(9) ROSÉN, Hans. DN/Ipsos: Majoritet för Nato efter Finlands och S besked. Dagens Nyheter.. Estocholmo, p. 1-1. 17 maio 2022. Disponível em: https://www.dn.se/sverige/dn-ipsos-majoritet-for-nato-efter-finlands-och-s-besked/. Acesso em: 22 maio 2022.

(10) SUNDHOLM, Marianne. Alla tiders rekord för Natostöd hos Finlands folk: 76 procent säger ja i Yles enkät. Svenska Yle. Helsinque, p. 1-1. 09 maio 2022. Disponível em: https://svenska.yle.fi/a/7-10016286. Acesso em: 22 maio 2022.

(11) ROSÉN, Hans. DN/Ipsos: Majoritet för Nato efter Finlands och S besked. Dagens Nyheter.. Estocholmo, p. 1-1. 17 maio 2022. Disponível em: https://www.dn.se/sverige/dn-ipsos-majoritet-for-nato-efter-finlands-och-s-besked/. Acesso em: 22 maio 2022.

(12) ABS NEWS. Russia threatens retaliation as Finland and Sweden aim to join NATO. 13 de maio 2022. Disponível em: https://youtu.be/X8orWlG1YBk . Acesso em: 22 de maio 2022.

 (13) CNN BRASIL. Putin diz que Rússia responderá se Otan reforçar militarmente Suécia e Finlândia. 16 de maio 2022. Disponível em: https://youtu.be/kne7g_FANxg Acesso em: 22 de maio 2022.

(14) WINIARSKI, Michael. Sergej Lavrov: ”Om Sverige går med i Nato måste vi vidta nödvändiga åtgärder”. Dagens Nyheter.. Estocolmo, 28 abr. 2016. Disponível em: https://www.dn.se/nyheter/sverige/sergej-lavrov-om-sverige-gar-med-i-nato-maste-vi-vidta-nodvandiga-atgarder/ . Acesso em: 22 maio 2022.

(15) LAURÉN, Anna-Lena. Än så länge förvånansvärt lite muller från Kreml angående Natomedlemskapet. Dagens Nyheter.. Estocolmo, p. 1-1. 18 maio 2022. Disponível em: https://www.dn.se/varlden/anna-lena-lauren-an-sa-lange-forvanansvart-lite-muller-fran-kreml-angaende-natomedlemskapet/ . Acesso em: 22 maio 2022.