Por que as eleições presidenciais de 2022 na França importam?

Por Teresa Cristina Schneider Marques

No próximo domingo, dia 09 de maio, os franceses irão às urnas para a escola do presidente pelos próximos cinco anos. É certo que a influência francesa no cenário internacional é reduzida se comparada à potências econômicas como os Estados Unidos e a China. Mas as eleições na França importam de diferentes maneiras. Destacamos dois motivos centrais: a sua posição em organismos internacionais e o seu poder de influência no plano das ideias.

As posições centrais assumidas pelo país em organizações, instituições internacionais e blocos regionais que têm grande peso no cenário internacional é o primeiro ponto a ser debatido para compreender a questão aqui colocada. Como exemplo, podemos destacar o seu papel na Organização das Nações Unidas (ONU), uma organização intergovernamental, criada logo após a segunda guerra mundial com o objetivo de promoção da paz. A França é um dos países fundadores da ONU, ocupa uma das cinco cadeiras permanentes do Conselho de Segurança e, portanto, conta com o poder de veto, o que torna importante a sua posição em caso de conflitos. Além disso, o país é parte do eixo estruturante da União Europeia, juntamente com a Alemanha, sendo que atualmente ocupa a presidência do bloco. Embora a UE tenha vivido uma crise há poucos anos com o Brexit, ele tem uma importância histórica, haja vista que serviu como modelo para a construção de processos de integração em todo o globo e, atualmente, importa compreender o seu futuro, principalmente em um momento no qual a Europa volta a conviver com a guerra em seu território.

Imagem disponível em: https://www.elysee.fr/

Dito isso, fica claro que as eleições de 2022 são ainda mais relevantes no presente contexto, marcado pela Guerra na Ucrânia, dado que atualmente a França ocupa a presidência da UE. É certo que não há ainda um alinhamento entre todos os países europeus sobre como se posicionar perante a Rússia e os Estados Unidos, mas os riscos envolvidos forçam um fortalecimento da UE como um bloco, sobretudo para fazer frente aos desafios comuns que agora emergem, tais como a dependência do gás russo e a acolhida do fluxo massivo de refugiados vindos da Ucrânia. Como a Alemanha é mais dependente do gás russo, ela se afastou dessa posição de liderança de um bloqueio contra a Rússia. Essa posição foi ocupada por Emmanuel Macron, sobretudo após a emergência de denúncias de massacres contra civis na cidade ucraniana de Bucha. A eleição na França, portanto, pode ter um peso para o desenrolar do conflito e da forma como os europeus lidarão com as suas consequências.

Quanto ao seu poder de influência no campo das ideias, cabe mencionar a importância da França como um termômetro sobre o fortalecimento de tendências políticas observado globalmente, grosso modo, desde a Revolução Francesa, mas sobretudo após a segunda guerra mundial. A partir de então, o país participou ativamente da construção da ordem internacional mais institucionalizada que já existiu e que foi fundamental para a validação da chamada “diplomacia dos Direitos Humanos” europeia, que, segundo Bertrand Badie, contribuiu para a promoção de enquadramentos globais, tais como os Direitos Humanos. Portanto, a partir de uma perspectiva das Relações Internacionais que assume que as ideias importam, é possível inferir que a França tem grande importância como promotora de agendas globais, dado o soft power construído pelo Estado francês e a expansão da diplomacia cultural francesa.

Do ponto de vista ideológico, as eleições na França também importam, haja vista que elas podem indicar tendências de fortalecimento da esquerda ou da direita perante o eleitorado, ainda que o comportamento dos eleitores franceses possa ser considerado particular.  Como exemplo, cabe mencionar a emblemática a eleição de 2002 na qual o partido de extrema direita, o Front National que então contava com Jean Marie Le Pen como candidato, conseguiu chegar ao segundo turno contra Jacques Chirac do Union Pour un Mouvement Populaire (UMP), um partido de direita. Como resposta, a população desse país no qual a esquerda possui grande força foi às urnas no segundo turno para evitar a chegada da extrema direita ao poder, revertendo a abstenção registrada no primeiro turno em favor da manutenção do regime democrático ao elegerem Chirac. Embora o pragmatismo dos franceses não seja observado em todas as democracias, importa compreender a postura do eleitorado.

Atualmente, pode-se afirmar que cenário internacional é marcado pelo fortalecimento de um chamado “internacionalismo reacionário”. Segundo Camilo Burian e José Antônio Sanahuja em um estudo recente e muito pertinente, essa nova direita visa colocar em xeque processos que se fortaleceram após a queda do Muro de Berlim, como os processos de integração e assume uma agenda claramente conservadora.

Para compreender esse contexto na França, cabe lembrar que Macron foi eleito em 2017 pelo partido La République en marche! com um discurso de “neutralidade ideológica”, afirmando não se posicionar nem à direita, nem à esquerda no espectro político. Ele foi ministro da economia de François Hollande, do Partido Socialista, mas ao assumir a presidência, colocou em andamento um governo de direita que aprovou duras medidas para a classe trabalhadora. Com efeito, entre as medidas aprovadas por Macron entre 2017 e 2022, merecem destaque: a aprovação do fim dos impostos sobre grandes fortunas; a finalização de programas de apoio social (habitação social, por exemplo); a aprovação do aprofundamento da reforma trabalhista que foi aprovada em 2016, mesmo diante de protestos massivos em várias cidades francesas (os protestos Nuit débout); além de ter enfrentado diversos protestos com duras medidas repressivas.

Por outro lado, no plano internacional, Macron procurou manter uma imagem de distanciamento de líderes da extrema direita, dentre as quais destacamos o presidente brasileiro Jair Bolsonaro. Isso ficou evidente como declaração de Macron em coletiva de imprensa na cúpula do G7, quando, como resposta aos comentários misóginos contra Brigitte Macron endossados por Bolsonaro em redes sociais, afirmou que “o Brasil merece um presidente que se comporte à altura do cargo”. Além disso, mesmo de aproximação com a esquerda internacional, ao receber o ex-presidente e pré-candidato Luís Inácio Lula da Silva com protocolos de chefe de Estado.No entanto, Macron parece ter tido a preocupação em não afetar as relações econômicas entre o Brasil e a França nesse período, o que conseguiu manter o Brasil como principal parceiro econômico desse país europeu na América Latina.  

A postura ambígua de Macron indica que o presidente francês visa manter estratégia de sua primeira eleição e conquistar votos tanto à direita quanto à esquerda. Ademais, busca o apoio internacional à sua reeleição, aproveitando-se de um contexto doméstico e internacional marcado pelo receio do triunfo eleitoral da extrema direita. Na França, a extrema direita se personifica na candidatura de Marine Le Pen do partido Rassemblement National, antigo UMP, que, segundo as últimas pesquisas de intenções de voto, aparece como forte candidata ao segundo turno, com apenas dois pontos abaixo de Macron (Segundo o Institut Français d’Opinion Publique – IFOP). O Rassemblement National assume uma posição negativa quanto à acolhida de fluxos migratórios, além de mobilizar o debate sobre nacionalidade e identidade francesa. Ainda, cabe destacar que de acordo com a imprensa francesa, Le Pen assume uma “proximidade desconfortável” com Putin. Por sua vez, Jean-Luc Mélenchon, candidato do partido de extrema esquerda, La France Insoumise, aparece em terceiro, com uma agenda com pautas em favor da classe trabalhadora, enquanto é acusado pela imprensa de ter posições “anti-Europa” no contexto da Guerra da Ucrânia.

Diante desse quadro, percebe-se que essa eleição é deveras particular, haja vista tudo que se encontra em jogo. Macron se mantém em um frágil primeiro lugar como “um governo de direita, candidato da esquerda”, tal como ironicamente apontado pela mídia e as redes sociais francesas, o que já prepara os franceses para um possível segundo turno que deverá definir a eleição no dia 24 de abril próximo. Dado as diferentes e extremas posições dos principais candidatos quanto à temas de interesse global, percebe-se que os debates ultrapassam a política doméstica francesa, podendo oferecer pistas sobre o futuro do internacionalismo reacionário e da União Europeia frente à guerra.

Referências:

BADIE, Bertrand. La diplomatie des droits de l’Homme: Entre éthique et volonté de puissance. Paris: Fayard, 2002.

SANAHUJA, José; LÓPEZ BURIAN, Camilo. Internacionalismo reaccionario y nuevas derechas neopatriotas latinoamericanas frente al orden internacional liberal. Conjuntura Austral11(55), 22–34. https://doi.org/10.22456/2178-8839.106956

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