Augusto de Oliveira, Laura Pedron e Luiza Krachefski.
No dia 21 de novembro de 2021 o Chile realizou o primeiro turno de uma eleição presidencial histórica. Pela primeira vez, tanto a aliança de centro-esquerda que reconstruiu a democracia chilena, quanto os partidos de direita tradicionais, tendem a estar fora da disputa. A queda do sistema partidário chileno será apenas a última em uma série de transformações. O sistema eleitoral que mantinha congelada a polarização entre duas alianças políticas foi reformado, permitindo o avanço de candidaturas “apartidárias”. Uma constituinte foi convocada e poderá ampliar o restrito papel que o Estado chileno desempenha em áreas como saúde, educação e previdência social. No entanto, essas mudanças não aplacaram a insatisfação demonstrada em protestos de rua massivos e na forte rejeição ao atual presidente, Sebastian Piñera.

Os eleitores abandonaram as lideranças estabelecidas e colocaram na dianteira da disputa presidencial duas candidaturas radicalmente diferentes. Uma delas é a de Gabriel Boric, de 35 anos, que iniciou sua carreira política como líder estudantil. No segundo mandato como deputado, tornou-se candidato à Presidência após vencer as prévias de uma coalizão de esquerda. Suas principais propostas abrangem a criação de um Sistema Universal de Saúde, a desmilitarização da polícia, a garantia dos direitos humanos para minorias sociais e um plano de recuperação econômica contra os efeitos da pandemia. Com um discurso de inclusão social e reforço da atuação do Estado, o candidato posiciona-se em sintonia com as manifestações populares dos últimos anos.
O ultraconservador José Antônio Kast (55 anos) apresenta sua segunda candidatura à Presidência. Após fazer carreira em um partido de direita tradicional, a União Democrática Independente, fundou uma agremiação para lançar-se à disputa deste ano. Sua plataforma política reforça políticas neoliberais que, segundo interpretações, perduraram da ditadura militar ao recente período democrático. Adota uma postura crítica a direitos como o casamento igualitário e o aborto. Sem citar diretamente os protestos, Kast pauta uma agenda de lei e ordem com ênfase na atuação das forças armadas na segurança pública e em outros setores.
O segundo turno das eleições chilenas ocorreu em 19 de dezembro. Confirmando a previsão das pesquisas eleitorais, Gabriel Boric e José Antônio Kast colocaram o Chile em uma encruzilhada. A eleição de Boric tende a aprofundar o processo de transformação política pela qual passa o país, progredindo nas pautas que animaram os protestos populares e a eleição da Convenção Constituinte. A eleição de Kast, que já manifestou sua simpatia por Jair Bolsonaro, apontaria em um sentido diferente. Eclipsando as reformas limitadas do período democrático e as aspirações por transformações maiores, sua candidatura evocava os fundamentos políticos e econômicos da ditadura de Pinochet. A eleição presidencial de 2021 encerrou definitivamente a fórmula que garantiu ao Chile 30 anos de estabilidade política e desenvolvimento econômico, mas falhou em gerar inclusão social com redução das desigualdades. A vitória de Boric representou um passo em direção ao futuro.
(Projeto Eleições Presidenciais na América Latina. Com Laura Pedron, bacharelanda em Relações Internacionais e bolsista de Iniciação Científica na PUCRS, e Luiza Krachefski, estudante da Escola Estadual de Educação Básica Dolores Alcarazcaldas e bolsista de Iniciação Científica Júnior na PUCRS.)